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Qui., Out.

 

Daniel de Sá, Escritor, a propósito de “ChrónicAçores: uma circum-navegação” 

IN: DI 29-04-2009

Daniel de Sá, Escritor, a propósito de “ChrónicAçores: uma Circum­navegação”(J. Chrys Chystello),

“Para os outros somos o que parecemos ser”

daniel

DANIEL DE SÁ: “Quanto mais universais forem as referências de uma pessoa, menos preconceituosa tende a ser a sua maneira de sentir o mundo à sua volta”

São de sua autoria o Prefácio e a Introdução ao livro “ChrónicAçores: uma circum­navegação” (J. Chrys Chrystello), que acaba de ser lançado. Parece ser um livro de mundividências. O que o atraiu na obra?

Mais que tudo precisamente essa caraterística de andarilho de Chrys Chrystello. Que, forçosamente, se reflete na sua maneira de ver o mundo e, por consequência, ficou plasmada na escrita. Quanto mais universais forem as referências de uma pessoa, menos preconceituosa tende a ser a sua maneira de sentir o mundo à sua volta. Seja o mundo dos grandes espaços geográficos e sociais, sejam os pequenos mundos insulares ou rurais.

O discurso da obra parece ser de síntese de culturas, com um olhar que procura compreender e integrar num todo Humano realidades tão distintas como, por exemplo, Timor e os Açores. Esse objetivo é conseguido?

Sem dúvida. O Chrys tem como paradigma cultural superior a Austrália, que é um dos países culturalmente mais “universais” que há. Lá mesmo coexistem povos praticamente da Idade da Pedra e uma sociedade científica e tecnologicamente das mais avançadas. Mas ele tem também as referências de Trás-os-Montes ou do Douro Litoral, a que há que juntar, entre outras, a experiência quase traumática do Timor ancestral e da agonia do povo de Lorosae a caminho da formação de uma pátria.

O autor, J. Chrys CHRYSTELLO, parece, ele próprio, ser o produto de uma síntese de culturas. Parece­lhe que essa construção cultural do autor tem uma importância decisiva nas perspetivas da narrativa?

Obviamente. Costuma dizer-se que quem escreve escreve-se. É difícil sair do mundo mental próprio quando se entra na aventura da escrita. É que um livro, ao contrário de nós, nem sequer é ele e a sua circunstância. O livro depende apenas

da circunstância, que é o autor.

O que pode um açoriano ganhar com a leitura desta obra? Eventualmente uma nova visão de si próprio e do seu contexto?

Sob esse ponto de vista, há várias perspetivas a considerar. Há o prazer do texto, o que é sempre importante, direi mesmo que fundamental, numa obra literária. Há a revelação de realidades que nos são pouco familiares, com destaque para a questão de Timor, que só conhecemos nas versões da comunicação social, e raramente pelas personagens do drama. E há, sim, essa visão diferente de nós mesmos. É sempre bom que tomemos consciência do que parecemos ser a olhos de estranhos (o Chrys vai-se revelando a pouco e pouco cada vez menos um estranho), porque, quer queiramos quer não, para os outros somos o que parecemos ser e não aquilo que julgamos ser.

IN: DI 29-04-2009

António Armindo Couto Apartado nº. 1.146 (Côrte-Real) 9700-047 Angra do Heroísmo Terceira -Açores

Chrónicaçores

https://www.youtube.com/watch?v=pOwrZ2nwxGQ&list=UUfH-fiSXyyKC9QkU3YnmHYQ

Chrónicaçores: circum-navegação de Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores (Volume um -  março 2009)

 CHRYS CHRYSTELLO

Na lenda havia um Rei Artur, Sir Galahad, os cavaleiros da Távola Redonda e a busca pelo Santo Graal. Aqui não há Dom Quixote, nem Sancho Pança nem moinhos de vento, contra os quais espadanar. Há apenas um cavaleiro da poesia e utopia, temeroso e aventureiro, sequioso de aprender outras línguas, hábitos e culturas. De Trás-os-Montes, sua mátria desconhecida, parte à conquista do “lulic” em Timor Português, dos hippies em Bali (Indonésia), sobrevive ao“Anno Horribilis”no Verão Quente (1975 em Portugal), atravessa as Portas do Cerco (na China de Macau), percorre a Austrália Ocidental, Vitória e Nova Gales do Sul, com passagem pelo Oriente do Meio e seus emirados, metade da Europa, da Ásia e parte do Pacífico Sul, antes de redescobrir o Brasil, Portugal e muitos outros países para, por fim, aterrar como umButeo buteo rothschildi na ilha de S. Miguel (Açores) donde parte também em conquista de Santa Maria, Faial, Pico e S. Jorge. Se na pátria (Austrália) descobriu uma tribo aborígene a falar um crioulo português com mais de 450 anos, descobriu na antiga Bragança a sua mátria e nos Açores descobriu o que a maior parte do mundo desconhecia.Esta viagem leva-nos num périplo pelo mundo em que o autor vai cronicando, como Marco Polo, as terras, as gentes e os costumes e tradições. Da análise política, social e pessoal parte à descoberta de culturas. Recuperando as suas origens, retorna ao seio duma Lusofonia sem raças, credos ou nacionalidades, até se radicar na “Atlântida” onde irá desvendar, divulgar e dilatar desveladamente uma fértil literatura açoriana catapultadora de autonomias e independências por cumprir.

AUTOR:

Chrys CHRYSTELLO não só acredita em multiculturalismo, como é um exemplo vivo do mesmo: Nasceu no seio duma família mesclada de Alemão, Galego-Português (942 AD) e Brasileiro do lado paterno e Português e marrano do materno. Publicou aos 23 anos o livro “Crónicas do Quotidiano Inútil, vol. 1 poesia ” Viveu em Timor (Setº 1973- Junho 1975) onde foi Editor-chefe do jornal local (A Voz de Timor) em Díli em 1974. Começou a interessar-se pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialetos em Timor. Desde 1967 dedicou-se sempre ao jornalismo (rádio, televisão e imprensa escrita). Durante décadas escreveu sobre o drama de Timor Leste enquanto o mundo se recusava a ver essa saga. De 1976 a 1982 desempenhou funções executivas como Economista, Chefe da Divisão de Serviços Administrativos da Companhia de Eletricidade de Macau. Ali, foi Redator, Apresentador e Produtor de Programas para a ERM/ Rádio 7/Rádio Macau/TDM e RTP Macau. Depois, radicar-se-ia em Sydney (e, mais tarde, em Melbourne) como cidadão australiano. Durante os anos na Austrália esteve envolvido nas instâncias oficiais que definiram a política multicultural daquele país. Foi Jornalista no Ministério do Emprego, Educação e Formação Profissional e Ministério da Saúde, Habitação e Serviços Comunitários; tendo sido Tradutor e Intérprete no Ministério da Imigração e no Ministério de Saúde (estado de Nova Gales do Sul). Divulgou a descoberta na Austrália de vestígios da chegada dos Portugueses (1521-1525, mais de 250 anos antes do capitão Cook). Igualmente difundiu a existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (há quatro séculos). Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators & Interpreters), Chrys lecionou em Sidney na Universidade UTS, Linguística e Estudos Multiculturais a candidatos a tradutores e intérpretes. Durante mais de vinte anos, foi responsável pelos exames dos candidatos a Tradutores e Interpretes na Austrália (NAATI National Authority for the Accreditation of Translators & Interpreters). Foi Assessor de Literatura Portuguesa do Australia Council, na UTS Universidade de Tecnologia de Sidney (1999-2005), Tem inúmeros trabalhos publicados em jornais e revistas académicas/ científicas, e apresentou temas de linguística e literatura em conferências (em países como a Austrália, Portugal, Espanha, Brasil, Canadá, etc.). Em 1999, publicou em livro a sua tese de MA, o Ensaio Político “Timor Leste: o dossiê secreto 1973-1975”, esgotado ao fim de três dias. Em 2000 publicou (e-book) a monografia "Crónicas Austrais 1976-1996". Em 2005 publicou o "Cancioneiro Transmontano 2005" e publicou (e-book DVD) outro volume dos seus contributos para a história "Timor-Leste vol. 2: 1983-1992, Historiografia de um Repórter" (> 2600 pp., edição de autor CD). Entre 2006 e 2010, traduziu, entre outras, as obras de autores açorianos para Inglês, nomeadamente de Daniel de Sá (Santa Maria ilha-mãe, O Pastor das Casas Mortas) e de Manuel Serpa (As Vinhas do Pico), Victor Rui Dores "Ilhas do Triângulo, coração dos Açores (numa viagem com Jacques Brel) "; "São Miguel: A Ilha esculpida" e a "Ilha Terceira" também de Daniel de Sá. Organiza desde 2001-2002, os Colóquios Anuais da Lusofonia (no Porto, Bragança. Lagoa (São Miguel, Açores), Brasil e Macau. É atualmente o Editor dos CADERNOS (DE ESTUDOS) AÇORIANOS, coordenados por Helena Chrystello e Rosário Girão. Proferiu uma Palestra organizado pela ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS em 29 de Março de 2010 juntamente com Malaca Casteleiro e Concha Rousia. O seu último livro, volume um duma trilogia, foi publicado em Março de 2009, "ChrónicAçores: uma Circum-navegação, De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores, " cronicando as suas viagens em volta do mundo. Em 2010 colocou-o online para livre utilização em http://www.scribd.com/doc/39955110  enquanto acabava o segundo volume a publicar em 2011. Mantém o interesse no ensino de tradução, multiculturalismo e Inglês. É, atualmente, Mentor dos finalistas de Literatura da ACL (Association for Computational Linguistics, Information Technology Research Institute) da University of Brighton no Reino Unido e Revisor (Translation Studies Department) da Helsinki University, além de Consultor do Programa REMA da Universidade dos Açores..

 

ChrónicAçores:GRATUITAMENTE http://www.scribd.com/chrystello/

 http://www.scribd.com/doc/39955110/CHRONICACORES-UMA-CIRCUM-NAVEGACAO-DE-TIMOR-A-MACAU-AUSTRALIA-BRASIL-BRAGANCA-ATE-AOS-ACORES-VOLUME-UM-DA-TRILOGIA

Chrónicaçores: circum-navegação de timor a macau, austrália, brasil, bragança até aos açores (volume dois abril 2011)

 

Almeida Garrett, num arremedo deProposição às Viagens na Minha Terra, protesta que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica. Ora, Chrys Chrystello assume, neste livro, o papel do cronista que vai relatar observações e relatos, divagações e sentimentos sobre uma relação de proximidade com as ilhas (o tópos) que escolheu para viver. Digamos que se trata de uma vontade de conhecer para amar – e só se pode amar o que se conhece. As ilhas atlânticas – a Macaronésia, assim designada – surgem, deste modo, como uma realidade geográfica, histórica, simbólica para um homem que carrega ilhas que são continentes, História que abarca centúrias pejadas de heterodoxias, símbolos dispersos sem coesão nem coerência na vastidão cronológica e espacial. Porém, em vez de adotar um discurso meramente denotativo, o seu passadio de jornalista perscruta realidades e conjeturas para construir hipóteses de cidadania cultural, que só pode ser universalista e pancrónica. Donde, estas crónicas são aliciantes, de leitura facilitadora para um entendimento de um modo de ser português sem clausura no retângulo europeu nem nas massas de água que separam continentes: é o Mundo – físico e mágico – que neste livro navegamos, jubilosamente, descobrindo o que sabe-se-lá.

 

Vasco Pereira da Costa

 

imagens aqui https://www.youtube.com/watch?v=pOwrZ2nwxGQ&list=UUfH-fiSXyyKC9QkU3YnmHYQ 

 

 

NO ‘RASTO’ DE JC: AS ‘ROTAS’ DA MEMÓRIA...

 

 

                                                                              MARIA DO ROSÁRIO GIRÃO RIBEIRO DOS SANTOS

                                                                                                              MANUEL JOSÉ SILVA

                                                                                                              (Universidade do Minho)

 

                Quem nunca desconfiou da autobiografia, tão falaciosamente linear, que estabelece um pacto referencial, se assume como pura subjetividade e detém uma função (questionável…) de verdade? Quem nunca questionou o jornal íntimo, diariamente escrito (em princípio…) e obrigatoriamente datado, bem como o ensaio, ambos provenientes de uma estética do “non finito”? Quem nunca se deteve no autorretrato e na autoficção, suscetível de ser definida como o desejo de criar uma nova individualidade, pela via da osmose entre ficção e referencialidade?

                A obra de C.C., obra total, assume-se como resposta exemplar a uma ineficaz indecisão teórica: escrita na terceira pessoa (uma ‘não pessoa’, pois nem designa o leitor nem o alocutário…), e tendo como protagonista o “castelão” (alterónimo do Autor) J.C., à “janela do seu ‘castelo’ onde tem o seu escritório”, ela oferece, mediante a restrição do ponto de vista instaurado(a), um amplo ‘fresco’ social e uma aprofundada reflexão, quer sobre o ‘fenómeno’ genelógico (poemas, crónicas, lendas, fragmentos de jornais íntimos, documentários), quer sobre os eventos mais marcantes de uma ‘consciência’ em devir (o compromisso com a justiça, a luta contra a corrupção e a revolta perante o facilitismo consuetudinário), quer sobre os espaços e os tempos não ao acaso respigados (“De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores”) - numa perspetiva geográfica, histórica e política -, que formaram o Homem/Escritor e com ele entreteceram relações eufóricas e disfóricas.

                Um novo conceito subjacente à escrita pessoal perfila-se, assim, no horizonte: a “circum-navegação” entendida como relato subjetivo de uma existência que os espaços configuram e como retrato de uma época conturbada (cinquenta anos de História?), objetivamente pincelado pela distância que o alterónimo faculta e que a memória incentiva.

 

                Nem sempre a teoria e a crítica literárias se revelam eficazes no tocante à delimitação de fronteiras entre as diversas categorias de escritos pessoais e à representação multifacetada do eu íntimo (invenção cartesiana... de Pascal), ou, por outras palavras, da substantivação do pronome, indicador contextual e indexual da primeira pessoa. É o caso da autobiografia, que obedece, em geral, a uma sucessão linear de etapas cronológicas, que estabelece um pacto autorreferencial pela via do compromisso de autenticidade firmado pelo Autor[i] e que tanto detém uma função de conquista de verdade (visando desmascarar réstias de ficção) como uma função de domesticação do tempo (a conferir um valor de monumento à obra catarticamente redigida) e, por fim, uma função de comunicação anelada (pela dimensão ilocutória subjacente à escrita catártica). A ‘grafia do eu’ oscila, assim, entre o modus significandi das palavras da subjetividade e o modus agendi que remete para o uso de tal (tais) palavra(s) subjetiva(s).

                Na sequência desta definição incipiente e/ou de uma constrangedora incompletude, parece não ser despiciendo abordar alguns ‘marcos’ de análise que reputamos cruciais (Clerc, 2001: 77), tais como o título e o subtítulo, a seleção dos episódios evocados e a alternância dos jogos verbais. Género misto, ancorado na narrativa e no discurso, a autobiografia não raro é interrompida por uma súmula elucidativa de observações tecidas no presente de enunciação e suscetíveis de sublinharem a dependência dos factos da história à voz narrativa que os organiza. Vê-se, assim, ritmada pelo comentário interpretativo, por parte do escritor, dos atos passados da personagem que ele foi e já não é: “A vida passada só fazia sentido para o ego que fora mas já não era.” (Chrystello, 2009: 20); longe, porém, de ser um discurso solipsista, o monólogo consigo mesmo (inscrevendo-se neste dialogismo uma dualidade traduzida pela escrita do vivido e pela sua subsequente exegese) estimula o diálogo, de onde o leitor (nomeado ou subentendido) não está obviamente excluído: “Isto pode ajudar o leitor a compreender o que se vai seguir.” (2009: 322) / “Ainda bem que foram os portugueses quem ‘descobriu’ o Brasil. Imaginem que se fossem os espanhóis ou os ingleses não havia índios como eles fizeram na América do Sul e na Austrália aos aborígenes.” (2009: 129).  

                Nesta conjuntura teorética, ChrónicAçores, de Chrys Chrystello, poderia ser ‘rotulada’ de autobiografia, na medida em que dá a sensação de percorrer, conquanto de modo descontínuo, as etapas vivenciais mais marcantes da trajetória de JC: “Do anti-herói. Do nascimento”, “Casa nova. A família em crescimento é como as desgraças nunca vêm sós”, “Liceu e entretenimentos doutras eras”, “A entrada na Universidade é sempre traumática”, “Finalmente a malfadada tropa e o casamento, dois males nunca andam sós”, “maio 1974, a expectativa, a fraude e o desengano”, “Annus Horribilis. Outubro 1976: Diáspora macaense”, “O regresso a Díli”, “Austrália. A Ilha e o nascimento duma filha” e “Letras Açorianas”. Esta reconstituição de vivências, não ao acaso respigada na “Circum-navegação” de Chrys Chrystello, obedece menos à ordem cronológica (sendo constantes as anacronias sob forma de analepses esclarecedoras e de aliciantes prolepses) do que à matriz temática: não será, aliás, a cronologia (tempo da realidade e não tempo anacrónico da escrita) uma pura ilusão, posto que, sinónima de reconstrução, determina relações de causalidade nem sempre existentes na vida? Por seu turno, o autobiógrafo sofre[ii], pensa-se e diz-se como um ser de exceção ou como a origem irrefutável de todos os valores, enquanto o memorialista, mediante o balanço da sua existência em função da exegese do fresco sociocultural, tem como escopo a recapitulação dos conflitos mais pertinentes da sua geração (Hubier, 2003: 54). A não exemplaridade de JC, por ele confessada e assumida, sobressai ao longo dos seus périplos e respetivas experiências que se não furta a partilhar: não só é um anti-herói convicto como um observador passivo (2009: 103) que, de decénio em decénio, vai desiludindo os Pais (2009: 264), comprazendo-se em obter a mais baixa classificação como Oficial do Exército (2009: 272) e sendo renitente a “exames de qualquer tipo” (2009: 43). Reconhecendo que anda “ao contrário de todo o mundo” (2009: 126), não só prepara a via à irrupção da sátira (num universo às avessas) como empresta à sua obra, total e plural, uma coloração picaresca: contudo, não será o mundo o genuíno ‘herói’ pícaro em vez do pseudopicaresco JC? Ainda nesta ordem de ideias, o discurso memorialista tende a proteger-se da introspeção e a privilegiar a narração, dá primazia à História relativizando a pessoa e, ao tratar o eu como um ele, enfatiza o papel histórico do observador, instaura uma distância de bonomia algo irónica entre o narrador e o protagonista, faculta uma visão sociopolítica menos complacente e imparcial, porquanto alicerçada num campo de restrição automático, quase de autocensura. A este respeito, atentemos no incipit de ChrónicAçores:

                “Felizmente sempre tivera a mania de escrever e guardar o que escrevia. Assim chegou este autor a ler tudo o que JC escrevera ao longo de mais de meio século. Eram notas, pequenos apontamentos, escritos e manuscritos de caligrafia variável como os estados de alma, de vários tamanhos, formatos e estilos, que se haviam acumulado em pastas não catalogadas nem sequer ordenadas de qualquer forma específica. [...] Fora um trabalho longo. Ler e rever tudo o que lhe aparecia escrito e descortinar o que era real, inventado ou meramente sonhado. [...] Uma vez na posse daqueles arquivos preciosos [...] a sua tarefa fora interpretar e colocar geograficamente os eventos nos locais por onde JC passara, que nem um autêntico caixeiro-viajante do mundo, sempre impaciente e insatisfeito em busca de uma pátria, uma mátria, um lar. E é sobre a fluente e vasta escrita de JC que este livro versa. [...] era ainda tímido e acanhado quando nos franqueou a porta para a sua vida e para aqui narrarmos um pouco do seu percurso.” (2009: 19 e 41).

                O supracitado fragmento inaugural não deixa de espoletar algumas questões relevantes. Em primeiro lugar, a assunção do género como “memórias”[iii], geradoras de uma autobiografia detentora de precária autonomia. Em segundo lugar, a rutura com o eu da convenção e a adoção da terceira pessoa que, não designando o locutor nem o alocutário, constitui o suporte de um discurso emitido por um sujeito escrevente que tem, como horizonte, a intentio lectoris: “Rompendo com a tradição iria ajustar a sua identidade à persona que aceitara como seu alter-ego e com a qual teria de habitar para o resto dos dias. [...] Fora importante esta dicotomia para definir a sua personalidade, [...]” (2009: 28). Em terceiro lugar, o recurso a um alterónimo, pela via do qual o Autor, a fim de se conhecer melhor, se retrata como se fosse um estranho em relação a si mesmo: “Há decerto um problema de identidade conflituosa que se esgrime e cuja solução foi encontrada nesta identificação tardia com a sua meninice.” (2009: 179). Em quarto lugar, o ineditismo deste autorretrato[iv] e heterorretrato, evidenciando quer a transformação psicológica da personagem, no espaço multímodo atravessado, quer a consciência heraclitiana do fluir do tempo, passíveis de justificação tanto da nostalgia difusa como da significação ideológica e política configurando o egotismo literário. Assim é que a prosopografia (pouco ou nada sabemos do aspeto físico de um JC que aderiu à moda “hippie”...) é preterida pela etopeia (sinónima de caraterização psicológica e moral): JC, que viveu três vidas numa só (2009: 20), é um otimista nato (2009: 85), um “sonhador, idealista, poeta e jovem” (2009: 76), um eremita por vocação (e, em simultâneo, um crítico sagaz), um adepto da igualdade (2009: 42) e, por fim, um amante de carros... para não falar da sua bem conhecida vertente multiculturalista. Em quinto lugar, o quadro histórico, a narrativa de viagens e a notícia de jornal (manchete ou não...) não deixam de ser agrupadas sob o nome de crónicas e de ensaios, confrontando, em paralelo, experiências subjacentes à esfera do privado e do público, tecendo analogias e tirando conclusões, qual arte do esboço advinda de uma estética do “non finito” e desembocando num inevitável caráter fragmentário. Este culto do fragmento está, igualmente, patente em excertos de um eventual jornal íntimo, indiciado pela data inserida entre parêntesis curvos: “ (14 de dezembro de 2005) ” / “ (fevereiro de 2007”) (2009: 129 e 265).

                Esta escrita do eu, que é também, algo paradoxalmente, escrita sobre o outro, desagua com frequência na autoficção, “un de ces territoires nouveaux et privilégiés du romanesque contemporain” (Doubrovsky, 1988: 7), género híbrido que estabelece um pacto de verdade intencional, mas não real. Arte da perturbação, alicerçada na ambiguidade e na contradição, a autoficção[v], caraterizada pelo estabelecimento de correlações entre ficção e referencialidade e pela dificuldade em distinguir o sujeito do enunciado do sujeito da enunciação, surge do desejo de criar pela arte uma nova individualidade, um outro eu não permanente que re-envia a uma frágil multiplicidade carecendo de profundidade psicológica. Ora, não se identificará, em certa medida, toda e qualquer autobiografia com uma autoficção? A este propósito, quedemo-nos na elucidativa frase de JC: “Foi tudo inventado numa deprimente tarde chuvosa de inverno aqui na ilha de S. Miguel.” (2009: 255). E não deformará a recordação (mediante a idealização gerada pela distância ou a repulsa que essa mesma distância não olvidada desperta) a experiência vivida per se deformada? Será que a felicidade invoca a felicidade e o desespero evoca o desespero? Ou tratar-se-á do caso inverso, como sublinhou Dante – “Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria” – nos antípodas dos “Souvenirs” de Musset?

                Em ChrónicAçores, Chrys Chrystello convoca as memórias do seu alterónimo JC, que de contínuo recorre à memória voluntária e fotográfica[vi], evidenciada pelo número significativo de ocorrências das formas verbais “lembrar” e “recordar”, em quase todos os modos conjugadas: “Recordava JC que, à noite, a vela [...] recortava ilusórias sombras [...]” (2009: 168); “Lembrava-se, em particular, duma Páscoa [...]” (2009: 179); “Será importante recordar aqui [...]” (2009: 249); “Lembra-se de ter escrito um artigo [...]” (2009: 297). Todavia, a memória afetiva (podendo ser definida como um sentimento presente defluindo do choque afetivo da recordação) não está ausente desta obra paradoxalmente confessional e impessoal: é através da memória romântica (Tadié, 1999: 177) que JC se sente impelido a regressar aos espaços de outrora no intuito de reviver, com a intensidade possível, o álbum das fotos antigas[vii]. O resultado deste regresso afigura-se constrangedor: um re-encontro decetivo com os silêncios do tempo, com a vacuidade dos locais escavada na antiga plenitude e com a iminência da morte pairando de manso sobre a ressurgência emotiva[viii]. A par da memória romântica irrompem de mansinho, por vezes sem convite mas bizarramente convidadas, a memória sensitiva, sobremaneira olfativa[ix] e auditiva[x], e a memória imaginativa. Incapacitado de tornar a sentir a sensação de antanho, apressa-se JC a reconstruir a imagem-recordação, bem como o sentimento que julga tê-lo invadido em épocas transatas: “O que mais persiste na sua já distante reminiscência dos factos, a que o tempo, as ficções e os aspetos místicos da imaginação acrescentaram decerto algo, é o enorme fogão a lenha que havia na cozinha.” (2009: 29) / “Quando JC falava da sua estadia em Bali, reconstruía sempre mentalmente esse período [...]” (2009: 371). Nem sempre, porém, JC se consegue recordar, talvez pelo facto de a memória não ser hoje o que dantes era (1999: 368): “Mesmo hodiernamente [...] tentava sem conseguir, recordar-se de cheiros, aromas e sabores dessa época.” (2009: 257). A fecundidade desta rememoração e deste esquecimento é marcada por oportunas digressões incidindo ora sobre as guerras tribais timorenses, ora sobre a descrição ‘pitoresca’ dos templos balineses, ora sobre a controversa descoberta das Ilhas açorianas, ora sobre os contarelos e lendas do património brigantino, exarado, de modo exaustivo, no Cancioneiro Transmontano. E não constituirão a digressão histórica ou geográfica e o excurso político ou cultural meios óbvios de desdramatizar o ato autobiográfico (Didier, 1983: 17), autorizando o seu diferimento e garantindo a sinceridade do circum-navegador? Assim sendo, a datação externa dos eventos sociais, rigorosamente estabelecida, a par da cronologia pessoal, interna e relativa, permitem aos biógrafos ‘descartados’, pois não encartados, traçar genericamente a biografia de JC... 

 

BIOGRAFIA DE JC

 

1949 – Nasce JC (no pós-guerra) (2009: 24). A sua geração, nascida no pós-guerra (“entenda-se 2ª Grande Guerra”), é uma geração rebelde (2009: 254).

1951 – Por volta dos dois anos, vai de visita às berças (Trás-os-Montes), à aldeia de Azinhoso, no Mogadouro, e à de Eucísia, em Alfandega da Fé (2009: 30). Desde esta idade, massacra com beliscões o Sr. Padre Manuel, “há décadas a pregar no Azinhoso” (2009: 190).

1955 – Cinco anos e meio depois do seu nascimento, nasce sua irmã (2009: 37).

1959 – A sua irmã tem quatro anos (2009: 37).

1959-1960 – Por esta altura, faz exame de admissão aos liceus, na escola que hoje se chama EB1 nº 18 na Rua dos Miosótis. Quanto à escola primária, onde estudou até à quarta classe, ela será demolida no decénio de 80 (2009: 43). JC tem pouco mais de nove anos quando a família muda para a Rua do Campo Lindo (2009: 225). Passa a frequentar o Liceu (2009: 229).

1960 – É um aluno acima da média nos dois primeiros anos do Liceu Alexandre Herculano, sito na Avenida Camilo, Porto (2009: 228). O percurso de ida e de regresso do Liceu era demorado: JC apanhava um elétrico nº 8 na Rua do Campo Lindo ou um nº 7 ou 7/ (“lia-se sete com traço”) na Rua de Vale Formoso (2009: 229). Outras vezes, a professora de Francês, que “levava as filhas ao Rainha Santa” (2009: 229), dá-lhe boleia.

1961 – Até esta data, e nas férias do verão, iam para a Póvoa do Varzim, “onde alugavam uma casa em frente à velhinha estação dos caminhos-de-ferro” (2009: 44). Por ter uma ótima voz, até aos doze anos, grava um disco “single”, em casa de seu tio, cujo tema principal é “Et maintenant” de Gilbert Bécaud (2009: 228). Por esta altura, abre o primeiro café da zona chamado “Cenáculo” (2009: 233).

1961-1962 – JC passa férias em Trás-os-Montes. Teria uns doze ou treze anos quando ‘embarca’, para essa viagem histórica, num Opel Olympia preto, cuja matrícula é IB-17-55 (2009: 159).

1962-1964 – Vai com os seus dois primos e seu Pai a Penas Róias: o jipe voltou-se e “tiveram todos de saltar para não ficarem debaixo do rodado.” (2009: 193). Nessas longínquas férias, visita pela primeira vez a Espanha com os seus Pais (2009: 193).

1963-1964 – Morre a sua bisavó Moraes (“de aparência azeda e de poucas palavras”) aos 91 anos, teria JC catorze ou quinze anos (2009: 163). No quinto ano do Liceu, JC passa a Letras e reprova a Ciências, pois, nesta época da sua vida (dos treze aos quinze anos) só pensa no sexo oposto (2009: 235). Bebe, aos catorze ou quinze anos, na aldeia da Eucísia, a sua primeira e única cerveja, que o leva “à cama com uma hepatite ‘A’” (2009: 249). Publica, neste período, alguns artigos no jornal Centauro (que se opunha ao conservadorismo do jornal O Prelúdio), propriedade dos alunos do Liceu Alexandre Herculano (2009: 250).

1965 – Começa a namorar, aos dezasseis anos, com uma jovem que a família não aprova por não a considerar “compatível com os seus pergaminhos”. Os dois últimos anos do Curso Liceal decorrem normalmente (2009: 239).

1966 – Conhece Lisboa, já com dezassete anos (2009: 194). Morre a sua avó paterna, à qual era muito afeiçoado (2009: 235 e 288).

1966-1967 – Colabora com a Rádio Alto Douro (RAD), propriedade do avô de um primo seu (2009: 249). Em abril deste ano, é o primeiro estudante português convidado para um Programa de Intercâmbio com a Finlândia (2009: 274).

1967 – JC começa a sua longa carreira de jornalista ao fazer a reportagem do “Circuito Internacional de Vila Real” e da “Fórmula 3”, vendendo “um exclusivo à Rádio Renascença para quem haveria de trabalhar até sair de Portugal em 1973” (2009: 241). Transmite a notícia da morte de Otis Redding (num desastre de aviação ocorrido a 10 de dezembro). Após 1967, e por frequentar o TUP, torna-se politicamente ativo (2009: 258).

1969 – Estreia-se no TUP (Teatro Universitário do Porto) a 22 de abril. Em maio está na Covilhã com o Teatro Universitário na estreia da peça de Lope de Vega intitulada “Fuenteovejuna” (2009: 246).

1970 – Quando faz vinte e um anos, o Pai oferece-lhe um cigarro SG – Ventil, “dizendo que já podia fumar”. No entanto, JC prefere o seu maço de Estoril e replica: “obrigado, pai, mas prefiro dos meus” (2009: 239).

1970-1971 – Entre novembro de 1970 e março de 1971 vende Enciclopédias Verbo e outros livros “com algum sucesso financeiro.” (2009: 246).

1972-1973 – Publica, em maio, Crónicas do Quotidiano Inútil (Edição de Autor). Um dos textos poéticos desta coletânea foi dito por Mário Viegas, que viria a falecer em 1996 (2009: 246). A 9 de outubro entra pela primeira vez no Convento de Mafra para seis meses de recruta [Serviço Militar Obrigatório (2009: 271)]: “Ao fim dos seis meses tivera a distinta honra de ser o oficial com a mais baixa classificação que alguma vez se tinha graduado: 10,3 valores.” (2009: 272). Passa um mês em Tomar como Aspirante de Infantaria, reclassificado em Aspirante de Intendência (2009: 272-273), é transferido para Leiria (RAL – 4) como Aspirante SAM (Secretariado e Administração Militar), estagia mais um mês em Santa Margarida e regressa a Leiria, onde permanece de abril a setembro de 1973 (2009: 273).

1973-1974 – Casamento de JC, em abril de 1973 (2009: 273). É mobilizado para Timor, com partida marcada para 17 de setembro. Hesita em partir e idealiza uma fuga, pois “Adorava Paris” (onde fizera escala antes de rumar ao Oriente exótico) e receava o desconhecido (2009: 274-275). Em setembro de 1973, descreve Díli (para onde fora destacado como oficial miliciano da Intendência) como uma “cidade sem vida, morrendo devagar nas próprias cinzas.” (2009: 287). De setembro a dezembro deste ano, exerce funções de capitão (na Chefia dos Serviços de Intendência) na vila de Bobonaro, perto da fronteira indonésia, onde escreve quase diariamente à sua esposa sem obter qualquer resposta. Em contrapartida, recebe semanalmente epístolas de seu Pai (2009: 290). A 24 de dezembro de 1973, contacta com a sua Esposa, que não está interessada em vir para Timor (2009: 290).

Vive em Díli de dezembro de 1973 a abril de 1974. É suspenso como Editor-Chefe do jornal A Voz de Timor e como autor de “Educação – Um Suplemento Especial”, sendo impedido, até abril de 1974, de se expressar publicamente (2009: 299). 1974 – Vive na Indonésia (2009: 133). JC vê, pela primeira vez, um letreiro na porta dos templos balineses (relativo ao ingresso) que o deixa chocado (2009: 138). Em julho, morre o seu avô materno (2009: 288 e 302). Em meados de setembro, JC, “desiludido com o crescente partidarismo político”, decide demitir-se do seu cargo de Editor-Chefe de A Voz de Timor (2009: 323). A 18 de novembro, “chega o novo e último comandante militar que o convida para liderar a pasta da Comunicação Social”, convite este que declina (2009: 339). Toma, então, a resolução de partir para Bali, “terra paradisíaca dos hippies” (2009: 339). Depois da amnistia decretada pelo General Spínola, JC parte em gozo de licença militar prolongada, viajando para Bali e Java e, depois, para a Austrália, mais concretamente para Melbourne e Sidney (2009: 345). O seu estatuto de “ausente sem licença” é revogado e recebe um louvor pelos serviços prestados. É promovido a Chefe Interino dos Serviços de Intendência (2009: 345).

1974-1975 – Ruma à Austrália, por se ter apaixonado, “com a habitual fogosidade e impetuosidade”, por uma jovem (2009: 346). Compra, em Sidney, a meias com um vigarista, um pequeno café restaurante chamado “Perama’s” e especializado em bolos – JC aprecia sobremaneira o “Banana Cake” (2009: 348).

1975 – A 29 de fevereiro regressa a Timor e vai alertando, em vão, para a presença de barcos da Marinha Indonésia em águas timorenses (2009: 352). Em maio, acaba por vender o “Perama’s”. A 6 de junho, é promovido a tenente, ficando na situação de disponibilidade. Separa-se da sua primeira esposa (neste período crítico, é apoiado por sua irmã) e vai viver com os seus Pais.

1976 – Morre o melhor amigo de JC (2009: 288). Em maio, um ano depois de regressar a Portugal, nascem dois gémeos do sexo masculino (2009: 373). No Natal, parte para Macau, fazendo antes da partida um mês de estágio na Central Térmica do Carregado (2009: 374). Em Macau, trabalha na CEM (Companhia de Eletricidade de Macau) e na Rádio Macau. Apaixona-se por uma jovem macaense.

1978 – Vive com a jovem macaense num subúrbio de praia na Austrália Ocidental. Toma a decisão de escolher a Austrália – “descoberta após 1950” (consoante informação colhida num artigo de CC intitulado “A pátria não é a língua portuguesa (para os luso australianos) ” – como a sua pátria adotiva, tal como já decidira fazê-lo quando lá estivera em 1974 (2009: 379).

1979 – Em finais do ano, é decretado o divórcio litigioso de JC.

1980 – Casa com a macaense, pelo registo civil, em Hong-Kong (2009: 381). O Pai de JC confessa-lhe, por esta altura, que se apercebera de que JC, há longos anos, lhe havia cobrado propinas em duplicado (2009: 252).

1986 – Nasce a sua filha Ingrid em agosto (2009: 384). JC trabalha para a “Agência de Notícias Lusa” e é professor de tradutologia.

1988 – Vinte e cinco anos depois de ter reprovado no Liceu, tem a coragem de dizer a seu Pai que ele o deveria ter “metido a marçano”, conforme o prometido (2009: 235).

1992 – Morre o seu Pai (2009: 288). Em julho, é convidado para um Congresso de verão na Universidade do Minho. Em finais do ano, é suspenso pela “Agência Lusa” (2009: 385).

1994 – Morre a sua última tia-avó (2009: 168).

1995 – Regressa a Portugal (2009: 385).

1996 – Nigel, o seu filho mais novo de JC, nasce no Hospital de Santo António no Porto.

2000 – Morrem os seus tios maternos (2009: 288).

2002 – Entre 2002 e 2005, JC, “o único a viver no distrito”, acalenta o sonho de restaurar a casa da Eucísia (2009: 169).

2002 – Chega a Bragança (informação colhida no Cancioneiro Transmontano).

2005 – Na feira do livro de Bragança, é lançado o seu Cancioneiro Transmontano (2009: 155-156). Sente-se, então, “transmontano dos quatro costados, apesar do pouco tempo contabilizado a viver na região.” (2009: 155-156). Aliás, ao longo dos “anos que vivera em Bragança, todos se habituaram a JC, como um australiano que falava português” (2009: 155).

A partir de 21 de setembro, pelas 22.30 nos Açores, fazem-se sentir pequenos sismos, relatados em jornal íntimo e sísmico (2009:75). JC descobre que seu filho Nigel, de nove anos, “andava a fazer uma busca de sexo livre na internet” (2009: 121). JC visita sua Mãe, decidindo que, doravante, passarão a ser os outros a visitá-lo (2009: 263).

2006 – Visita da filha que reside na Austrália (2009: 263). Nigel, filho de JC, anda preocupado porque os colegas, lá na Escola, “andavam a fumar cagarros” (2009: 101). Sonha com o convite de retornar, em agosto, a Timor, trinta e um anos decorridos sobre a sua estada, de 1973 a 1975 (2009: 202).

2008 – Os autores desta biografia conhecem pessoalmente JC.

 

                Algumas conclusões se impõem desde já.

Primeira conclusão – Se o género “memórias” se adequa indubitavelmente à segunda parte da obra em análise (que nos seja lícito dividir o indivisível...), correspondente à maturidade ou ao amadurecimento do Autor, a autobiografia, detendo uma função heurística, invade, sem sombra de dúvida, a primeira parte, equivalente a uma cosmogonia feliz, ao tempo revolvido da inocência e ao espírito de aventura de uma juventude perdida.

Segunda conclusão – Se a identidade entre autor, narrador e protagonista é desde o incipit questionada, mercê da alteridade que a intrusão de JC carreia, tal questionamento tende paulatinamente a delir-se, à medida que a criatura JC pede de empréstimo a sua personalidade ao criador ortónimo CC, a ponto de os dois se confundirem e fundirem, no explicit, numa primeira pessoa reveladora do artifício literário ao serviço do pseudorromanesco[xi]. Aliás, para certos críticos, a originalidade da autoficção consiste no desvendamento do nome próprio: JC parece constituir, verdade seja dita, uma parte do nome de CC...

Terceira conclusão – Se as motivações psicológicas da escrita pessoal (Miraux, 2007: 27) nem sempre ressaltam óbvias nas páginas inaugurais de ChrónicAçores, surgem transparentes no seu epílogo, podendo mesmo ser elencadas. De facto, CC, sujeito escrevente órfico em busca do seu produto textual, qual Eurídice punida pelos deuses, circum-navega com o fito de psicanalisar a origem dos seus atos, analisar o seu percurso individual em função do contexto coletivo, traçar o retrato moral e social da sua geração, partilhar com outrem as suas vivências transatas e presentes, unificar as miríades existenciais do seu conturbado percurso, compreender o universo circundante à luz de um passado mítico e de um presente em devir, fruir de uma felicidade possível, tecida de resignação ao statu quo, mas não isenta de combatividade, e refletir sobre a transitoriedade da condição humana que só a arte catártica pode redimir e eternizar.

Quarta conclusão – Se os estudos literários, até à data e no que respeita à literatura de matriz autobiográfica, tão-somente conhecem a autobiografia, tradicional e moderna, as memórias, o ensaio, as confissões, o jornal íntimo, o autorretrato e a autoficção, poderão doravante acolher no seu seio um novo subgénero, a “circum-navegação”, que passamos a definir mediante o prefixo “circum” (e quem se não lembra dos Descobrimentos) e do lexema “navegação” (e quem não é, nos dias de hoje, um ferrenho internauta?). Assim é que “circum-navegar” aponta para a circularidade da trajetória humana, que só no heteróclito encontra a unidade (para logo a perder...), que só na alteridade lobriga a identidade (ameaçada de contínuo), que só no fragmento descortina a totalidade (sonho desvanecido de precário) e que só no relativo entrevê o absoluto, dado que, como escreveu André Malraux, “L’art est un anti-destin”.

Quinta conclusão – No rasto de JC, e através da geografia literária que as rotas da memória configuram, forçoso se torna confessar que lhe perdemos o rasto alhures no decénio de 90. re encontrá-lo-emos[cc1] , todavia, aquando da publicação do segundo volume da trilogia ChrónicAçores...

 

[i] Segundo Jean Starobinski (1970), só se pode falar de autobiografia quando há identidade entre o narrador e o herói da narração, assim como primazia da narração sobre a descrição e noção de percurso ou trajetória (de uma existência). Por seu turno, Philippe Lejeune define autobiografia como uma narrativa retrospetiva em prosa “qu’une personne réelle fait de sa propre existence lorsqu’elle met l’accent sur sa vie individuelle, en particulier sur l’histoire de sa personnalité.” (1975: 14).

[ii] Segundo Georges Gusdorf, “La difficulté d’expression atteste une difficulté d’être, non par humilité, comme on le croit parfois, mais par recul devant le grand espace, devant l’affirmation de soi au péril des autres.” (1991: 23).

[iii] O conceito de memórias e de memória, metaforizada pelo “baú” e pelos “cofres”, é, aliás, recorrente na obra de Chrys Chrystello: “Depois fora visitar o baú das memórias [...]” (2009: 155); “Essa é, aliás, a única Páscoa da sua vida que conseguia evocar. [...] Além dos arraiais ou festas, por altura dos santos populares, merecia especial relevo nas suas memórias, a apanha e o descasque da amêndoa.” (2009: 180); “Mais uma experiência que se guardaria no baú das memórias.” (2009: 348); “Tantos que nem os nomes lobrigava, aferrolhados nos cofres da memória.” (2009: 124).

[iv] Do ponto de vista de Michel Beaujour, “La formule opératoire de l’autoportrait est donc: ‘Je ne vous raconterai pas ce que j’ai fait, mais je vais vous dire qui je suis.’” (1980: 9).

[v] Ver, a este propósito, a definição de Vincent Colonna: “L’écrivain est toujours le héros de son histoire, le pivot autour duquel la matière narrative s’ordonne, mais il affabule son existence à partir de données réelles, reste au plus près de la vraisemblance et crédite son texte d’une vérité au moins subjective – quand ce n’est pas davantage.” (2004: 93).

[vi] “As lembranças que JC guarda dessa época são mais decorrentes das fotos, [...] das quais reteve uma memória dos eventos por via fotográfica.” (2009: 29); “Há fotografias destas que jamais esmorecem ou amarelecem na memória de cada um.” (2009: 185).

[vii] “Quando entre 2002 e 2005 tentara percorrer alguns desses caminhos descobrira estradas novas. Alguns locais tinham perdido a sua imagem misteriosa e mística da juventude, e a memória de gentes perdidas.” (2009: 185); “[...] recriara os passos dados, quarenta anos antes, por aldeias, vilas, lugares e lugarejos perdidos na memória de tempos idos. Visitou-os a todos. Raras vezes encontrou os coevos desses percursos da sua infância.” (2009: 155).

[viii] “Também a casa está degradada. Parte do teto da cozinha velha (nas traseiras) a cair. Um certo ambiente de casa abandonada [...]” (2009: 168).

[ix] “Duma coisa estava, porém, certo: jamais esqueceria o cheiro a carvão e as fagulhas que saltavam da locomotiva nas viagens de comboio do Porto Trás-os-Montes.” (2009: 186); “Uma iguaria [cerejas e ginjas] da qual apenas a memória conserva cheiros e sabores.” (2009: 180).

[x] “[...] lembrava-se e jamais se esqueceria, das trovoadas fortes em pleno Verão durante as quais se metiam todos debaixo das camas, embrulhados em cobertores de papa, a rezar a Santa Bárbara que a trovoada passasse.” (2009: 185); “Quando JC estava de férias no Azinhoso, além do chiar dos rodados das carroças de bois que o acordava bem cedo todas as manhãs, lembrava-se de tantas coisas [...]” (2009: 189). Esta memória brigantina repassa, igualmente, as “Notas do Autor” ao Cancioneiro Transmontano: “Lembro-me do cheiro a feno na Eucísia, do chiar dos carros de bois no Azinhoso, dos cortejos pascais engalanados com as colchas penduradas nas pequenas janelas [...]” (2005: 9).

[xi] “[...] JC [...] decide demitir-se como Editor Chefe, [...] Exausto, [...] o autor entrega [...] pedras basilares, documentais e evidenciais, sobre os erros de anteriores administrações.” (2009: 323); “De princípio pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada.” (2009: 486). O negrito é da nossa responsabilidade.

Referências Bibliográficas:

Beaujour, Michel (1980) Miroirs d’encre: rhétorique de l’autoportrait, Paris: Éditions du Seuil, col. “Poétique”.

Chauvier, Stéphane (2009) “Ce que ‘Je’ dit du sujet” in Les Études Philosophiques. Moi qui suis le sujet, Paris: PUF, nº 1.

Colonna, Vincent (2004) Autofiction & autres mythomanies littéraires, Mayenne: Éditions Tristam.

Chrystello, J. Chrys (2002) “A pátria não é a língua portuguesa (para os luso australianos)” in Língua e Cultura. Atas do Congresso “A Lusofonia a Haver”, Lisboa: Sociedade da Língua Portuguesa, III série, número especial.

Chrystello, J. Chrys (2005) Cancioneiro Transmontano. Fotografia de Luís Canotilho, Bragança: Edição da Santa Casa da Misericórdia.

Chrystello, J. Chrys (2009) ChrónicAçores: uma circum-navegação. De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores. Prefácio de Daniel de Sá, Ponta Delgada: Ver Açor, Lda.

Clerc, Thomas (2001) Les écrits personnels, Paris: Hachette Supérieur, col. “Ancrage”.

Didier, Béatrice (1983) Stendhal autobiographe, Paris: PUF, col. “Écrivains”.

Doubrovsky, Serge (1988) Autobiographiques. De Corneille à Sartre, Paris: PUF.

Gusdorf, Georges (1991), Auto-bio-graphie, Paris: Odile Jacob.

Hubier, Sébastien (2003) Littératures intimes. Les expressions du moi, de l’autobiographie à l’autofiction, Paris: Armand Colin/VUEF.

Lejeune, Philippe (1975), Le Pacte Autobiographique, Paris: Seuil.

Miraux, Jean-Philippe (2007) L’Autobiographie. Écriture de soi et sincérité, Paris: Armand Colin.

Starobinski, Jean (1970) “Le style de l’autobiographie” in Poétique, Paris: Seuil, nº 3.

Tadié, Jean-Yves & Marc (1999) Le sens de la mémoire, Paris: Gallimard.


 

 

 

 

 

 

Apresentação crítica de Chrónicaçores: uma circum-navegação. De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores, de J. Chrys Chrystello. Prefácio de Daniel de Sá. Ponta Delgada, Ver Açor, Lda., 2009.

 

Um verbo a conjugar : circum-navegar

 

                                                        Absque sudore et labore nullum opus perfectum est

 

 

         Se há livros que devem ser lidos e cuja releitura prodigaliza novos rumos hermenêuticos, defluindo de um redivivo “prazer do texto” que incessantemente se descobre, outros há que merecem ser estudados com denodo, como é o caso desta obra de J. Chrys Chrystello, cujo nome e sobrenome têm vindo a ser adulterados, “desde Chrysler a Christofle, Castelo, Crastelo, Perestrelo ou Costello consoante os países.” (2009: 192). Exemplo emblemático de multiculturalismo (de que CC é “confesso defensor”), claramente introduzido e firmado, em termos óbvios, pelo conceito de “circum-navegação”, Chrónicaçores é, verdade seja dita, uma obra plural e total, protagonizada por JC, alterónimo, quiçá, de CC - sua mulher, HC, “comentara, um dia, que o grande problema existencial de JC era saber qual dos dois venceria o duelo, ele ou o seu alter-ego.” (2009: 179) -, sempiterno viajante, por terras reais e reinos imaginários, e “castelão” ‘atrelado’ ao seu teclado informático, para o qual vai ditando os seus périplos à medida que, pela revivescência, se vai contando...

         A estrutura circular da obra em exegese é, a este respeito, dilucidativa: abalando dos Açores, onde se encontra radicado, JC ruma até ao Oriente, não sem convidar para tal romagem o seu fiel leitor, ambos findando a epopeia marítima - “De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores” - no Arquipélago de origem. Do Ocidente para o Oriente e do Oriente mítico para o Ocidente gerador de mitos, é-nos dado deparar com um JC jornalista e “last but not least” e escritor. A trajetória em pauta é forçosamente escandida pela alternância de tempos verbais - o presente, o perfeito e o imperfeito -, re-enviando para um antes e para um depois, delineando um ontem e um hoje, ora recuando ora avançando, socorrendo-se de analepses esclarecedoras e de almejadas prolepses (no que respeita ao leitor...) e configurando um vaivém temporal dinamicamente responsável pelo retrato sociopolítico de Portugal ao longo de, grosso modo, sessenta anos - “Voltemos de novo à matança do porco” (2009: 108); “Bom, voltando aos Açores, [...]” (2009: 111); “Voltando à Rádio Renascença e ao automobilismo” (2009: 244); “Voltando atrás no tempo [...]” (2009: 250); “[...] como veremos adiante [...]” (2009: 172). Fazendo jus ao rigor prescrito por todo e qualquer trabalho académico (mas que, nos dias de hoje, nem todo e qualquer trabalho académico detém...), valendo-se de uma ampla bibliografia caracterizadora da tese universitária e do ensaio científico, consultando uma documentação genuína, não raro de difícil acesso, destinada a evitar o papagueamento de falsas verdades geracionalmente repetidas e cristalizadas em dogmas indefetíveis, JC observa “por entre as espirais do fumo dos cigarros” (2009: 103), disseca, analisa, comenta e arquiva não só o universo circundante, mas também o seu ego, que tem a generosidade de desnudar:

“A vida passada só fazia sentido para o ego que fora mas já não era.” (2009: 20).

“Por ser quem fora se tornara naquilo que hoje era.” (2009: 45).

Paulatinamente vai esboçando o seu autorretrato de homem ateu e não agnóstico (conquanto nostálgico da fé dos tempos idos), obcecado pelo “politicamente (in)correto”, imbuído de desencanto - proveniente da quebra de ilusões  e de rejeições sucessivas - perante a vida, propugnador de uma igualdade sem discriminações, inimigo de fundamentalismos ditatoriais e cumpridor escrupuloso de todas as leis. Justiceiro tenaz e inconformista ferrenho, “hedonista perfeito em perfeito levante exótico” (2009: 380), fumador, carnívoro (2009: 132) e exterminador de formigas (2009: 202), JC, poeta sonhador (2009: 237), anda “ao contrário de todo o mundo, como os caranguejos, mas em vez de andar para trás andava sempre para a frente, adiantado em relação aos restantes.” (2009: 125). Afinal, “JC é quem continua errado e não o mundo.” (2009: 209).

, há que destacar os capítulos consagrados à História de Timor, diacronicamente narrada e vastamente comprovada, que já havia sido, em certa medida, objeto parcial do ensaio publicado pelo Autor em 2000 e intitulado Timor Leste O Dossiê Secreto 1973-1975. Retrocedendo, na sua crítica arguta, aos métodos de Celestino da Silva, que tirava estrategicamente partido das rivalidades entre as diversas tribos, com vista à sua ulterior dominação, e que sabiamente recorria ao serviço doméstico de espionagem facultado pelas mulheres e amantes indígenas, revisitando a obra meritória de Filomeno da Câmara, na peugada do seu antecessor, e analisando o ensaio de Teófilo Duarte, suscetível de proporcionar um sólido conhecimento dos mais marcantes eventos novecentistas, vê-se o  leitor confrontado - “Nem as elites nem os jovens alguma vez leram estes episódios que bem retratam a grande nação de tribos timorenses.” (2009: 410) - com a descrição da Ilha em forma de crocodilo - contada pelo poeta Fernando Sylvan (2009: 292) -, com a autodeterminação espoletada pela Revolução dos Cravos, com a criação dos principais partidos políticos de Timor, com a sempiterna oscilação entre a Indonésia, a Austrália e Portugal no papel de países colonizadores e neocolonizadores, com a independência encarada como horizonte longínquo a atingir, com as fragilizadas condições de vida dos Timorenses, advindas do racionamento dos géneros essenciais, com as dificuldades de comunicação fomentadoras do isolamento, da ignorância e da despolitização, com a inexistência de sistemas rodoviários, marítimos e aéreos, com o deficiente aproveitamento de plantações insulares (sobretudo a do café, verdadeira fonte de riqueza) e com a questão da lusofonia ou, por outras palavras, da preservação da língua e da cultura portuguesas. Bem interessantes, a todos os níveis, se revelam quer os comentários políticos, breves e incisivos, com que JC brinda certas notícias publicadas no Portugal Diário e na Fonte Lusa de 21 de Junho de 2006, ou no Blogue Causa Nossa e no jornal Público de 25 de Junho do mesmo ano, quer o balanço final da controversa situação política timorense, retoricamente martelado pela quádrupla recorrência do sintagma verbal “Foi pena...”: “Foi pena que os líderes […] pensassem serem apenas umas pequenas ondas […] Foi pena que […] não se tivessem dedicado a emprestar pás e enxadas para ocupar os guerrilheiros desocupados […] Foi pena que […] não tivessem ‘nonas’ (amantes) para lhes contar o que se passava nos quatro cantos de Timor. Foi pena que tenham sido apanhados desprevenidos por esta insurreição tão bem orquestrada pela Austrália, […]” (2009: 471).

a tradição versus a inovação ou a regressão contra o progresso (e não serão as primeiras privilegiadas?) não escapam, numa perspetiva multifacetada, ao monóculo de lança em riste de JC, para o qual “a realidade já ultrapassou a ficção há muito.” (2009: 213): assim é que desfilam, em quadros visuais reforçados pela visualidade da escrita, a morosidade das viagens efetuadas entre Trás-os-Montes e o Porto (2009:31), bem como a celeridade, em termos relativos, dos antigos comboios “Foguetes”, ligando o Porto a Lisboa; a tradição de as famílias transmontanas, como a de sua Mãe, irem a banhos para a Póvoa, enquanto sua Avó e seu Pai elegiam, como estâncias de vilegiatura, as praias nortenhas da moda, como a Foz, Matosinhos, Miramar, Granja e, posteriormente, Espinho (2009: 45); a saudação amistosa dos ‘acinzentados’ cantoneiros que, no antigamente, desempeciam as bermas das estradas de uma indesejada vegetação invasora (2009: 97-98); o romantismo emanado pelos bilhetinhos sentimentais (2009: 121) que o jovem Romeu ou Lovelace endereçava às ‘encarceradas’ donzelas dos seus sonhos (batizada de Tina, neste caso concreto...), muito provavelmente tomado de empréstimo ao camiliano Amor de Perdição e Amor de Salvação ou, então, ao idealismo rural de Júlio Dinis que A Morgadinha dos Canaviais e As Pupilas do Senhor Reitor revelam à saciedade; a solicitude ancilar ou a prestabilidade das serventes ou sopeiras que, embora fardadas, se integravam naturalmente na família; a designação da bica - “Pavoni” e “Cimbalino” - no decénio de 60, que, metonimicamente, re-enviava para a marca da máquina de café expresso (2009: 103). Nos antípodas do passado mítico irrompe o presente desmistificado - “mudam-se os tempos.” (2009: 227) -, alvo certeiro da sátira cáustica e da ironia corrosiva: os cantoneiros, abandonados, deixaram o palco continental, tendo sido votadas ao olvido as suas castiças cabanas, em virtude do desaparecimento da Junta Autónoma de Estradas que, apesar dos escolhos, lá ia cumprindo a sua missão (2009: 99); a terminologia simples de antanho ‘complexificou-se’ (como é sólito dizer atualmente...), a fim de contornar eventuais réstias de complexo conotadas com as profissões mais humildes (2009: 29-30); a linha do Tua, que ofertava uma paisagem de beleza ímpar, viu-se e vê-se seriamente ameaçada, a par dos “Foguetes”, entrementes sumidos, que “apodrecem em Elvas” (2009: 210) e tendem a ser substituídos por luzidios e frenéticos TGV; quanto à vida sã da aldeia, ela dá a sensação de haver sido marginalizada e até petrificada - em proveito do urbanismo - num museu envidraçado, passível de visita, qual fenómeno arqueológico, pelos jovens citadinos desconhecedores da rusticidade e do primitivismo: “O campo é bonito para se passear nas férias e levar lá os putos (como quem os levava dantes ao zoológico) [...]” (2009: 211).

Sobrelevando a análise social, eis a História que fascina JC, “saudosista desses tempos de antanho a viver ancorado no futuro” (2009: 51-52), embora conhecendo de antemão a inviabilidade de alterar a visão estereotipada e convencional dos factos históricos. Nesta conjuntura, o mais insignificante caso de vida, o mais ínfimo detalhe social e a mais prosaica questão quotidiana não deixam de se revelar propícias à sua evocação, posto que “toda a gente fala mas ninguém se deu ao trabalho de estudar a História...” (2009: 470). É o caso da vida da Rainha Maria Pia de Saboia (2009: 35), das conjeturas tecidas, a partir dessa utopia e ucronia conducentes ao mito da Atlântida, sobre a descoberta das Ilhas açorianas (2009: 52-53), da ‘errância’ lendária das encantadas “Sete Civitates” (2009: 56), da enumeração de certos milagres atribuídos a Nossa Senhora do Açor (2009: 58-59), da digressão de teor explicativo - posto que JC também é professor: “JC explica [...]” (2009: 200) - pelas nove irmãs islenhas do Arquipélago (2009: 60 a 68), da descrição, por etapas sucessivas, do terramoto que arrasou Vila Franca do Campo (2009: 77 a 80), do elenco de alguns eventos telúricos açorianos ocorridos em Oitocentos (2009: 82 a 85) e da génese da devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres (2009: 81). Esta busca quase enciclopédica do saber surge evidenciada pelo culto do pormenor, atestando a profundidade da pesquisa e/ou a amplitude da investigação, traduzidas tanto pela diversidade genológica (lendas - Lenda dos Cavaleiros das Esporas Douradas e Lenda de Frei João Hortelão -, “faits divers” - ‘casos’ domésticos -, crónicas - sobre o rato de Cabrera, o lince-ibérico, o lobo-marinho, a truta-marisca e outras espécies em vias de extinção - e poemas - “Da Europa ao Oriente-do-Meio”) como pela variedade de tons (lírico, irónico e jornalístico, entre outros) que repassam a obra em apreço. Aprende-se, nesta sequência, que o Renault 4CV foi produzido entre 1946 e 1961 (2009: 42), que o total de casais reprodutores de cagarros (e não de charros...) aponta para mais de noventa e cinco mil (2009: 101-102), que o processo de transformação do chá engloba sete fases - emurchamento, enrolamento, fermentação, secagem, escolha, armazenagem e embalagem - (2009: 107-108), que o Festival da Eurovisão, ao qual o povo lusitano rendia preito (ainda lho renderá hoje?), teve início em 1956, que o último modelo da Toyota adquirido por JC em Macau - Cellica A40 Liftback ST de 2 litros - nunca aparecera em Portugal (2009: 126) e que o protagonista-alterónimo, vindo de Bragança, passou a residir, na Lomba da Maia, num T2 + 2 com um sótão, onde o senhorio construiu dois quartos para Nigel e um pequeno escritório para seu pai JC, onde cabem duas secretárias, duas estantes, os PC e os arquivadores (2009: 72).  

Este prazer do detalhe gostoso apresta-se a desaguar na avaliação estatística, domínio no qual JC é exímio: assim é que, na Lomba da Maia, o clima parece ser, embora não seja, mais húmido e mais fresco do que em Ponta Delgada, com temperaturas variando entre 21ºC e 25ºC (2009: 72); por sua vez, e no ano da graça de 2005, duas botijas de gás custavam 22 euros (preço inferior ao praticado no Continente), a empregada ou auxiliar doméstica (servente ou sopeira de outrora) auferia 25 euros por 8 horas de trabalho, montante este que recebia o jardineiro por se ocupar da horta e do jardim; para mais não referir, e no que respeita ao mesmo ano, tomava-se, em muitas casas, um único banho por semana, havia tão-somente dois canais televisivos - RTP-1 e RTP Açores - e, num universo de aproximadamente 250 000 lares, apenas 32 000 se encontravam ligados à TV Cabo (2009: 86). Mas onde a vertente economicista do economista JC deflagra de modo mais flagrante é, sem sombra de dúvida, na apresentação de projetos concretos visando, no futuro, o desenvolvimento dos Açores: a diversificação de queijos de qualidade, a exportação de produtos agrícolas, a criação do turismo marítimo subaquático, o incremento de passeios de barco ao largo das costas e a internacionalização dos cortejos etnográficos e do folclore português (2009: 498-499). 

Comentador da sociedade em evolução debruça-se sobre o desajustamento das crianças mimadas e sobre a depressão dos jovens hodiernos e queda-se na ‘transferência’ ou ‘transposição’ da silhueta maternal para a mulher que reputa capaz de colmatar as suas carências afetivas), jornalista (iniciando esta longa carreira com a reportagem, seguida de muitas outras, do “Circuito Internacional de Vila Real” e da “Fórmula 3”) e cultor da etnologia [basta reler as sumarentas páginas sobre a Bragança da sua adolescência - Vimioso e Alfandega da Fé, em particular -, revisitar os deliciosos episódios passados na sua mátria Austrália - “país onde viveria o resto da sua vida” (2009: 347) - e seguir a explicação exaustiva sobre a bem curiosa cerimónia balinesa da cremação], JC é, igualmente, um perito em tradutologia (quem se não lembra da tradução, para inglês, de O pastor das casas mortas de Daniel de Sá?) e um romancista nato, ao qual não é alheia essa operação de espírito, sinónima de disfarce, que é o humor. Não parece despiciendo, a este propósito, apresentar alguns exemplos, poucos que sejam... Aquando da visita aos Açores de sua filha mais velha, marido e neta, ouviram-se, uma certa noite, alguns “gritos porque um grilo estava no quarto deles e não deixava a miúda e a mãe dormir... Ia sendo uma verdadeira tragédia, pois, como sabem, aqui nos Açores, os grilos cantantes são descendentes dos dinossauros... Se, por acaso, uma barata entra em casa (não podem ter as janelas fechadas todo o dia) nem queiram saber a tragédia familiar que se coloca.” (2009: 74). Por seu turno, e no tocante aos sismos de 2006, reportados em jornal íntimo e sísmico, comenta JC que “O aeroporto fica na metade ocidental da ilha. Como o Audi A4 não nada nem voa, não terão hipóteses de sair...” (2009: 80). Do mesmo modo, e no que respeita aos infindáveis dias de trabalho dos Açorianos, é o leitor informado de que “quase todos os locais [habitantes] trabalham pelo menos seis dias de longas horas, quando não é na agricultura que aí são sete dias... que as vacas não seguem calendários, nem feriados ou dias santos.” (2009: 86). Ainda nesta ordem de ideias, se é “devido aos professores que não faziam nada que o país está nesta crise”, esses mesmos professores terão doravante “de se matar a trabalhar para o país sair da crise.” (2009: 86). Prosseguindo neste contexto, confessa JC que não esteve presente no casamento de sua irmã, “que ia, finalmente, dar o nó com o Gil, que não era Grissom, como o da série CSI, antes pelo contrário.” (2009: 379). Quanto a Mia, terceiro grande amor de sua vida, ela “faleceu nos anos 80, JC estaria agora viúvo.” (2009: 257).

Parece ter soado a hora não do Juízo Final, mas de determinadas considerações, porventura impertinentes, sobre o valor e a originalidade indubitáveis de Chrónicaçores.

Primo: Obra de cariz autobiográfico, alternando pendularmente entre as memórias aconchegadas no baú (2009: 348), o autorretrato e a autoficção, ela é narrada não na primeira pessoa, como é sólito neste subgénero autorreferencial específico, mas na terceira pessoa ou, por outras palavras, numa não-pessoa (suporte de um discurso proferido por um eu e destinado a um tu) responsável pelo distanciamento algo irónico instaurado entre o Autor  e o protagonista, entre CC e JC.

Secundo: Longe de privilegiar a narrativa retrospetivamente linear de uma existência em devir (e quem não desconfia da falácia dessas autobiografias cujo incipit é quase invariavelmente “Nasci”, nunca podendo ser o explicit “Morri”?), CC e JC tanto rumam a Timor e embarcam para Bragança como singram para a Austrália e arribam a Bali, percorrendo, desta feita, as várias fases da vida que, paralelamente às etapas da evolução social (os primeiros troleicarros que, em 1959, se estreiam no Porto, os entretenimentos dos anos 60 - King, canasta e paciências -, o programa 23ª hora na Rádio Renascença e a TV Rural de Sousa Veloso), se fundem e confundem, voluntariamente convocadas e mais ou menos inconscientemente interrompidas.

Tertio: Livro do conhecimento e da cultura, ele é, inequivocamente, um manual de aprendizagem - “Para quem não sabe”, informa JC (2009: 185) -  nos mais variados domínios do saber, desde a geografia e a história, passando pela etnografia e pela sociologia, e desembocando na tradução e na arte do romance, proporcionando ao leitor o aprofundamento de uma ou de outra matéria precisa, deste ou daquele aspeto específico. Romance de um romancista de nome JC, e ao serviço do metarromance, a “circum-navegação” não deixa de servir os intuitos do antirromance, problematizando as fronteiras entre o imaginário e o real, equacionando os limites do vivido e do sonhado e questionando o tradicional conceito de romanesco, que começa, de súbito, a vacilar. A prova é que Daniel de Sá entra, nesta “circum-navegação” inovadora, como personagem, a par de Nigel que, da personagem convencional, retém apenas um nome fictício...

Quarto: Surge, desta feita, o conceito de “circum-navegação”, suscetível de ser definido, em termos geográficos e literários, como narrativa autobiográfica de viagens. Se o espaço múltiplo vai fazendo o homem ao longo dos tempos do Tempo, o Autor vai escrevendo o livro ao mesmo tempo que se escreve a si próprio e que escreve sobre o outro que ele também é... Tal escrita catártica (oscilando entre o passado ilusoriamente ressuscitado e o esboço do presente desatualizado) é regida quer pelo anelo de aprofundar o conhecimento do seu eu (não era “Conhece-te a ti próprio” a divisa do templo de Delfos?), quer pela vontade de fazer um balanço de vivências transatas, estabelecendo uma ponte para projetos futuros, quer pela ânsia de vencer o tempo e de triunfar sobre a morte...

Quinto: E que dizer, depois de conjugar o verbo circum-navegar, dos Colóquios da Lusofonia e dos Encontros Açorianos da Lusofonia, cujo Presidente, poeta da Crónica do quotidiano inútil e autor do Cancioneiro Transmontano, parece não ser J. Chrys Chrystello... mas JC, sequaz acirrado de uma certa lusofonia? JC, aliás, irrita-se com a insignificância portuguesa “com manias de grandeza, que agora se reproduz em dez campos de futebol para estarem às moscas, para um aeroporto faraónico sem futuro, um TGV para espanhol ver e outras quejandas. É esta a Lusofonia que JC não quer.” (2009: 127-128).

Aguardemos pacientemente o segundo volume da trilogia Chrónicaçores para podermos desvendar este enigma policial: No ‘rasto’ de JC...

 

Maria do Rosário Girão Ribeiro dos Santos

 

Fumane (moriente die), 6 de Agosto de 2009

 

 

 

       

From: "Nuno Souto" <Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.      

Sent: Sunday, July 12, 2009 11:59 AM

To: "Chrys Chrystello" <Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Subject: O teu livro


 Acabei agora de o ler


 E sinto que devo escrever algumas palavras para expressar a minha opinião.

 De início, a linda descrição das ilhas recordou-me A Cidade e as Serras do saudoso Eça.  Depois, fui tratado com uma excelente e bem documentada análise da história inicial e recente do arquipélago, que muito me elucidou: desconhecia a maior parte.

 Fui levado então ao Nordeste do país, de onde também os meus avoengos são originários: cristãos-novos de Bragança. Adorei os detalhes e a história de tantas aldeias que nunca conheci mas de que ouvia falar. E algumas descrições tocaram perto, principalmente do ambiente estudantil e universitário. Foi o mesmo para muitos, pelos vistos.

 Passei depois a conhecer detalhes sobre a "colonização" de Macau que já suspeitava mas nunca tinha podido confirmar.  Foi óptimo verificar que a ganância dos "colonizadores" afinal não mudou muito do outro lado do mundo...


 E finalmente, aprendi mais detalhes do que alguma vez esperei sobre o único colonizador de Timor verdadeiramente digno desse nome: Celestino da Silva.  Foi um dos guias da acção colonial do meu pai, também um administrador de longa data: ainda hoje se podem ver efeitos da obra dele em Moçambique, no Googleearth. Tentou também fazer diferença em Timor, mas não foi tão bem sucedido.  Pelo menos conseguiu evitar a invasão de Timor pela Indonésia, quase levada a efeito em 66-67 aquando das loucuras do governador José Alberti Correia. Ameaçou-o de prisão, quando descobriu que queria "invadir" Atambua: estavam só 60000 para-quedistas em Jakarta, à espera que alguém lhes desse um motivo para intervirem...


E claro, mais uma vez confirmei aquilo que já sabia desde os tempos de colega de turma de liceu: ao Ramos Horta, não se dá nem um palito de confiança.  Por vezes pergunto-me se procedi bem quando impedi o José Rocha de matá-lo em Sydney, quando descobriu que o RH tinha estado a tentar encontrar-se com a filha dele - então uma menor.  Ri-me bastante quando soube que o RH estava acompanhado de uma sobrinha menor quando foi alvejado de manhã à porta da sua casa em Díli: "sobrinha menor", é?  Pois, pois: pelos mesmos!...


Raramente me é dada a oportunidade de ler algo na minha língua materna que me prende a um só livro: o normal é ler dois ou três ao mesmo tempo.  Este capturou-me e levou-me nas asas da imaginação e da memória como raros têm feito até hoje. Lamentei ter chegado ao fim.

Bem hajas.

Cheers
 Nuno Souto

 

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APRESENTAÇÃO CHRÓNICAÇORES: UMA CIRCUM-NAVEGAÇÃO DE CHRYS CHRYSTELLO

Nosso amigo Chrys parece mesmo acreditar que “navegar é preciso” e vai progredindo em sua “circum-navegação” embarcado nas palavras.

Brinda-nos com o segundo volume de sua ChrónicAçores para, como justamente observou Vasco Pereira da Costa, “construir hipóteses de cidadania cultrual, que só pode ser universalista e pancrônica” (orelha do livro).

Parece também que Chrys acredita, como Fernando Pessoa, que sua pátria está em sua língua. Fala, com certa frequeência que é um apátrida, mas vem parando, em terras lusófonas, a procurar nelas sua pátria, sua mátria, seu lar. E onde pára, este dínamo viajante se empenha em estudos da lusofonia, com projetos de tornar mais conhecida e amada sua língua materna.

Faz, como Cristóvão de Aguiar, sua Relação de Bordo, mas não dia por dia. Registra suas consideraçãoes dentro de faixas de tempo maiores, divididas em quatro tempos, quatro capítulos.

Começa por um tempo mais recente, já aportado nos Açores. No capítulo I, fala da Ilha de São Miguel e alguns autores açorianos: Dias de Melo, Cristóvão de Aguiar, José Martins Garca, Eduíno Borges Garcia, Daniel de Sá, Vasco Pereira da Costa e o angolano Eduardo Bettancourt.

Fala ainda de relações familiares, comentando visita de sua filha; fala de Lomba da Maia e comenta a devoção do Santo Cristo na Ilha.

Termina este capítulo, lembrando o Cenáculo de Antero de Quental enquanto sonha em criar também um cenáculo, idealizando os Colóquios de Lusofonia.

No capítulo II, recua para um tempo de vivências de sua infância, quando passava férias em Trás-os-Montes. Mostra-se, desde o início bastante paradoxal: nada sente relativamente ao Porto, sua cidade natal, onde passou um terço de sua vida. Abomina seu clima, não aguenta sua gente, que acha fútil de macambúzia. Afirma, em vista dito, ser australiano.

Fala de suas andanças alegres por Vimioso e pela casa da família; fala da lentidão da Estrada Nacional; chama a região de “terras do fim do mundo”.

Fala também de Eucísia, “aldeia das feiticeiras”, onde nasceram sua avó e sua mãe; revisita a história da família, “cheia de mistérios”. Aponta como local mais ativo o cemitério e relembra a apanha das amêndoas como um tempo feliz. Em Eucísia, em saudade da infância, da liberdade de suas correrias e até de um primeiro namoro bastante. Fala de andanças de judeus, aqui cristãos-novos e também de refúgio no Brasil, quando perseguidos pela Inquisição. Acusa a Inquisição de responsável por características, que aponta como  menos interessantes na personalidade portuguesa.

Sua visita à infância o leva a firmar: “As raízes não estão onde as queremos mas onde as sentimos”. Parece que isto endossa a afirmação de que é australiano.

Mais no fim deste segundo tempo Chrys se pergunta: “Começará JC a ser açoriano?”

O terceiro tempo, Capítulo III parece responder a isto. Logo no ínício arrola os terrrores do tempo presente, que assolam o século XXI, enchendo-se de consternação, de aflição. Mas logo adiante, à  página 167, escreve:

Aprendera. Não obstante  o país medíocre que abominava, alegrara-se com a nova vida, a mulher com quem empreendera nova etapa e o filho. Nestes Açores de montes e vacas alpinistas quase se convertera a uma qualquer crença para dar graças por estar vivo e sossegado neste paraíso verde. E nesta filosofia , que segue há uns anos, que o impede de lamuriar. Não se lastima da sina, dos sonhos e ambições pór realizar. Na ilha verde o solo é tão fértil que tudo nasce e se reproduz sem esforço.

E passeia, passeia pelas ilhas novamente: São Miguel, Pico, Faial. Comenta sua gastronomia; reclama pelos maus serviços prestados aos turistas. Elege Santa Maria “o espaço da tranquilidade” onde se podem regarregar as pilhas humanas. Comenta férias em outras três ilhas: Faial, 2007; São Jorge, 2008; Ilha do Pico, 2009. Nestas três últimas ilhas, sente-se tentado em ali permanecer, mas surtos de paixão por cada uma delas e preso a São Miguel, acaba por ser infiel a todas.

O quarto e último tempo, Capítulo IV, é todo ele um clamor contra as injustiças e desrespeitos impostos aos aborígenes da Austrália. Outrossim, Chrys analisa étimos e topônimos em Português Puro e Português crioulo. Mas, de minha parte, acredito que o mais importante deste último capítulo já se enuncia na frase de Martin Luther King que lhe serve de epígrafe: “Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.” (p. 227).

XXVI Colóquio

26 Coloquio AICL

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