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Sex., Out.

autoapresentação 15 julho ribeira grande cinetatro ribeiragrandense

Apresentação ChrónicAçores 15 julho 2011 ribeira grande

 

Começo por reconhecer à Ana Paula Andrade a bondade que sempre manifesta e a sua total disponibilidade para nos ter presenteado com estas modinhas do Cancioneiro Açoriano bem apropriadas a este livro. Agradeço ainda ao editor Francisco Madruga e à Editora Calendário das Letras, por terem publicado este livro e devo agradecer ao Dr. Ricardo Silva, Presidente da Câmara, por ser anfitrião na divulgação do mesmo aqui na Ribeira Grande, sede do concelho onde vivo e que já celebrou mais de 5 séculos. Este edifício, a antiga casa de João do Outeiro onde estamos, foi inaugurado em 1933, e remodelado e reaberto em 2000. Aqui se apresenta este livro com orgulho de termos presentes descendentes dos bravos homens e mulheres que, durante séculos, criaram esta cidade.

Como pode uma pessoa vinda de outras culturas e continentes entender estas ilhas e suas idiossincrasias? Pois bem, eu não só acredito em multiculturalismo, como sou um exemplo vivo do mesmo. Nasci numa família mesclada de Alemão, Galego, Português e Brasileiro do lado paterno e Português e marrano do lado materno. Só tarde me apercebi da herança judaica que tão importante foi no povoamento destas ilhas. Aos 23 anos publiquei o meu primeiro livro de poesia “Crónicas do Quotidiano Inútil”. Depois por cortesia do exército colonial fui defender o agonizante Império Português em Timor (1973 1975) onde fui Editor-chefe do jornal A Voz de Timor em Díli, antes de ir à Austrália e decidir adotá-la como pátria. Comecei a interessar-me pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialetos em Timor. Desde 1967 dediquei-me ao jornalismo (rádio, televisão e imprensa escrita) e durante 24 anos escrevi sobre o drama de Timor Leste enquanto o mundo se recusava a ver essa saga.

De 1976 a 1982 desempenhei funções executivas na Companhia de Eletricidade de Macau. Ali, fui Redator, Apresentador e Produtor de Programas para a TDM e RTP Macau. Depois, radicar-me-ia em Sydney (e, mais tarde, em Melbourne) como cidadão australiano. Na Austrália estive sempre envolvido nas instâncias oficiais que definiram a política multicultural do país. Fui Jornalista no Ministério do Emprego, Educação e Formação Profissional e no Ministério da Saúde, Habitação e Serviços Comunitários além de ter sido Tradutor e Intérprete no Ministério da Imigração e no Ministério de Saúde de Nova Gales do Sul.

Divulguei a descoberta da Austrália, de vestígios da chegada dos Portugueses (1521-1525, mais de 250 anos antes do capitão Cook). Igualmente difundi a existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (há quatro séculos). Como Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators & Interpreters), lecionei em Sidney na Universidade UTS, Linguística/Tradutologia e Estudos Multiculturais a candidatos a tradutores e intérpretes e por mais de vinte anos, fui responsável pelos exames dos Tradutores e Interpretes na Austrália (NAATI National Authority for the Accreditation of Translators & Interpreters).

Fui Assessor de Literatura Portuguesa do Australia Council, na UTS Universidade de Tecnologia de Sidney (1999-2005), publiquei trabalhos em jornais e revistas académicas/científicas, e apresentei temas de linguística/tradutologia e literatura na Austrália, Portugal, Espanha, Brasil, Canadá, China, etc.).

Em 1999, escrevi o ensaio político “Timor Leste: o dossiê secreto 1973-1975”, a que se seguiu em 2000 a monografia "Crónicas Austrais 1976-1996". Em 2005 compilei e publiquei o "Cancioneiro Transmontano 2005" e outro volume dos contributos para a história "Timor-Leste vol. 2: 1983-1992, Historiografia de um Repórter" (> 2600 pp., edição de autor CD).

Entre 2006 e 2010, traduzi, entre outras, obras de autores açorianos para Inglês, nomeadamente de Daniel de Sá[1], de Manuel Serpa[2], Victor Rui Dores "[3]. Em março 2009 publiquei o volume um da "CHRÓNICAÇORES: uma Circum-navegação, De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores, " cronicando as minhas viagens em volta do mundo.

Organizo desde 2001 os Colóquios Anuais da Lusofonia que ocorreram no Porto, Bragança. Ribeira Grande e Lagoa (São Miguel, Açores), Brasil e Macau e sou atualmente o Editor dos CADERNOS (DE ESTUDOS) AÇORIANOS, coordenados por Helena Chrystello e Rosário Girão.

Este segundo volume continua a minha circum-navegação. Na lenda havia um Rei Artur, Sir Galahad, os cavaleiros da Távola Redonda e a busca pelo Santo Graal. Aqui não há Dom Quixote, nem Sancho Pança nem moinhos de vento, contra os quais espadanar. Há apenas um poeta utópico, sequioso de aprender outras línguas, hábitos e culturas. Da infância em Trás-os-Montes, parti à conquista do “lulic” em Timor Português, dos hippies em Bali (Indonésia), sobrevivi ao “Anno Horribilis” no Verão Quente de 1975 Portugal, atravessei as Portas do Cerco na China de Macau, percorri a Austrália Ocidental, Vitória e Nova Gales do Sul, com passagem pelo Oriente do Meio e seus emirados, Europa, Ásia e Pacífico Sul, antes de redescobrir o Brasil e Portugal. Por fim, pairei nos ares como um milhafre sobre a ilha de S. Miguel donde fui também em conquista de Santa Maria, Faial, Pico e S. Jorge. Se na Austrália encontrei uma tribo aborígene a falar crioulo português com mais de 450 anos, descobri na antiga Bragança a mátria e nos Açores descobri o que a maior parte do mundo desconhecia: uma pujante literatura.

Esta viagem leva-nos num périplo pelo mundo em que vou cronicando tal como Marco Polo, as terras, as gentes e os costumes e tradições. Da análise política, social e pessoal parto à descoberta de culturas antes de regressar ao seio duma Lusofonia sem raças, credos ou nacionalidades, até me radicar na “Atlântida” onde desvendo e divulgo a fértil literatura açoriana catapultadora de autonomias e independências por cumprir.

Falta ainda agradecer à minha mulher por ter casado comigo. Sem isso estaria na Austrália e nunca teria conhecido os Açores e a açorianidade de que falo neste livro. Acredito na multiculturalidade e dela absorvi e aprendi mais nesses países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos compreendi que é possível preservar a nossa língua e cultura mesmo sem ter uma escrita por mais de 60 mil anos, com os chineses descobri o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, com os timorenses, macaenses e tantos outros aprendi outras partilhas de saber que ainda hoje fazem parte do meu quotidiano.

Como se pode optar por ficar aqui nestas ilhas e descurar todos os mundos que existem para lá deste arquipélago? É simples, uma pessoa fica ilhanizada como Almeida Firmino em A Narcose, como se os outros mundos não tivessem importância a não ser para divulgar o  segredo da existência de uma importante literatura de cariz açoriano. Foi preciso descer à Praia da Viola, passar pela Ribeira do Preto e pela do Frade e do Calhau para começar a entender como nasceu esta identidade. É preciso subir aos montes verdes, ver as vacas alpinistas e o mar que nos rodeia para entendermos a açorianidade que nos leva a escrever. Depois, é preciso viajar entre estas nove filhas de Zeus e entender os maroiços do Pico, calcorrear o Barreiro da Faneca, pisar as areias esbranquiçadas de Porto Pim e meditar em frente ao ilhéu do Topo. É essencial partir à descoberta de cada ilha, sonhando com Dias de Melo nas agruras e na fome dos baleeiros no Mau Tempo no Canal em reminiscências de Nemésio, parar num qualquer aeroporto e entender o Passageiro em Trânsito do Cristóvão de Aguiar, ler em voz alta a poesia do Fogo Oculto de Vasco Pereira da Costa, Viajar com as Sombras ou com o Tango nos Pátios do Sul de Eduardo Bettencourt Pinto, depois de revisitar as pedras arruinadas do Pastor das Casas Mortas ou a Grande Ilha Fechada de Daniel de Sá que tanto gosta de nos ensinar História enquanto nos conta as suas estórias. Escolhi estes que melhor conheço mas há muitos outros autores açorianos que não só merecem ser lidos, como deveriam constar obrigatoriamente de qualquer currículo de ensino.

Nos anos 70 designei para pátria a Austrália embora nunca tivesse deixado de conjugar a outra de Fernando Pessoa, a língua portuguesa. Hoje tenho como mátria Bragança mas aos açorianos o devo pois foram eles que me ensinaram o amor às raízes. Sinto como vocês transportam esse sentimento de pertença, aqui ou no estrangeiro. Toda a minha vida foi uma circum-navegação. A ChrónicAçores retrata amores ilhéus de Timor aos Açores e contém uma pequena monografia da Lomba da Maia onde vivo, e é dedicada à literatura açoriana e ao amor pelas ilhas que, já descobri, de S. Miguel, Sta Maria, S. Jorge, Faial e Pico.

Por último resta-me dizer que devemos cuidar de aproveitar aquilo que nos diferencia do resto da ilha para incrementar as nossas potencialidades de atrair turismo para todas as valências que a capital da ilha não tem, oferecendo a nossa imensa hospitalidade, gastronomia, os nossos montes e mares pois poderá estar aí o nosso crescimento económico e a solução para o desemprego que já começa a ameaçar a estrutura familiar das nossas gentes. Apostemos no turismo dos trilhos, da descoberta das baías e escarpas da  costa norte, no turismo cultural que aproveite bem a riqueza que são as nossas tradições, as igrejas e procissões, e a enorme opulência da nossa história que quase se confunde com a da própria ilha, pois na união está a nossa força, somos diferentes, somos da costa norte de mares agrestes, de ventos mata-vacas e temos o orgulho de 5 séculos de história.

Esta a mensagem final que entenderão bem melhor se lerem o ChrónicAçores. Bem hajam pela vossa paciência para me ouvirem pois vou terminar lendo o único texto em que uso termos típicos das nossas nove ilhas.

 

1.1. CONVERSAS DO ALÉM

 

Há tempos ficara menente quando lhe disseram que um falecido, na vizinha Lombinha da Maia, pedira para ser enterrado com o seu inseparável telemóvel. O homem sem pitafe2 algum viera da Amerca3, ali da antiga Calafona4, e queria estar contactável mesmo para lá do grande túnel luminoso.

Qual não foi o espanto, num alpardusco5 de camarça6, ao transitar pelo cemitério já encerrado a visitas, e ver três pessoas do lado de fora das grades do cemitério falando com alguém e usando os seus telemóveis ou celulares bem encostados ao ouvido. Uma delas, tinha uma mão nas grades e na outra segurava o aparelho.

Não tinha tarelo7 nenhum. Não querendo ser lambeta8, interrogava-se “Estaria a falar com o falecido, que nascera empelicado9?” Será que o finado atendeu do lado de lá dentro do seu caixão de mogno envolto na “Stars and Stripes” à prova de leiva10 ou continuaria na sua eterna Madorna11? Teria acendido um palhito12 para ver quem lhe ligava? De que falariam? Que mexericos trocavam? Lamentar-se-iam da falta que lhes fazia ou estariam a queixar-se da carestia de vida? Que palavras trocariam que não tivessem já comunicado? Que faltara dizer? Estariam a queixar-se da sorte caipora13 dos herdeiros ou a culpá-lo pela caltraçada14criada pelo inexistente testamento? Teriam sido vizinhos de ao pé da porta15? Falariam do gado alfeiro16 sem touro de cobrição? Talvez dum derriço duma filha numa constante arredouça17, às fiúzes18 do namorado da cidade? JC ia ficar a nove19 mas tratando-se de gente rural podia augurar que os vaqueiros se preocupassem mais com subsídios e vacas.

Não devem escalar grandes cumes culturais ou espirituais. Pressupunha ser esse o jaez da conversação. Não se crê que pedissem aconselhamento para as eleições legislativas dali a seis semanas nem tampouco lamentassem a falta delas. Quem sabe que lastimavam? Falariam, talvez, de mordomos, impérios e festas que isso, sim, seria assunto da maior relevância local, que o melhor da festa é esperar por ela, mas mais apropriado para se discutir à mesa, sem ninguém a atramoçar20, com uns calzins21de abafado22 até se ficar meio piteiro23.

Uma pessoa interroga-se sobre a possibilidade de duração infinita das baterias do aparelho no esquife. Seria a solução para tantos escritores e outros que se separam dos leitores sem tempo de dizerem um último adeus, escreverem a última frase de um livro, acenarem com um novo projeto ou retificarem qualquer coisinha. Seria a forma inédita de poderem continuar a comunicar com aqueles que ficam facilmente órfãos de autores que os acompanharam nesta digressão terrena.

 Admira-se que as companhias de telecomunicação não tenham inventado uma bateria de longa duração que não precise de ser carregada debaixo de terra e permita acesso ilimitado, a troco de uma conveniente taxa vitalícia, aos que os deixaram já no meio duma amizade, dum amor, duma relação, duma paixão. Seria, decerto, um êxito comercial se viesse com a possibilidade de personalização do aparelho. Quem sabe o que se evitaria de dores incompletas, de saudades por mitigar, de conversas inacabadas? Novos planos poderiam surgir em operadoras de telemóveis. Um tema a merecer estudos futuros…

(texto revisto por e dedicado ao Dr. J. M. Soares de Barcelos, autor de Dicionário dos Falares dos Açores (ed. Almedina 2008), por me fazer sentir menos estrangeiro

1.           Menente, espantado, estupefacto (São Miguel)

2.     Pitafe, defeito, atribuído quer a pessoas, quer a objetos. nódoa na reputação.

3.     Amerca, corruptela de América, ou Nova Inglaterra por oposição ao outro grande polo de emigração, a Califórnia

4.     Calafona, Califórnia, na estropiação dos emigrantes de antigamente

5.     Alpardusco, o mesmo que alpardo, crepúsculo, lusco-fusco (São Miguel)

6.     Camarça, tempo húmido (São Miguel)

7.     Tarelo, juízo, tino (São Miguel)

8.     Lambeta, intrometido (São Jorge)

9.     Empelicado, diz-se de pessoa afortunada, usado na frase nascer empelicado (Terceira)

10.   Leiva, designação dada a formações de musgo de várias espécies Sphagnum, abundante na parte alta das ilhas. No Corvo é o musgo, nas Flores musgão, no Faial tufos. Nome da urze, Calluna vulgaris, usada em S. Miguel na preparação do solo das estufas dos ananases.

11.   Madorna, sono leve, sonolência, torpor

12.   Palhito, o mesmo que fósforo (Terceira)

13.   Caipora, de qualidade inferior, reles. Sorte caipora: que pouca sorte, sorte maldita (São Miguel)

14.   Caltraçada, confusão, mixórdia, trapalhada

15.   Vizinho do pé da porta, o mesmo que vizinho do portal da porta, que mora nas redondezas de uma casa (vizinho de ao pé da porta em São Miguel)

16.   Alfeiro, gado bovino que não dá leite, por exemplo de uma vaca que não apanhou boi, e que, por isso, não dá leite. Gado alfeiro sem touro de cobrição (in Cristóvão de Aguiar)

17.   Arredouça, confusão, desordem

18.   Fiúzes (São Miguel) ou Às fiúzas de, àcusta de, viver à custa de outrem (Terceira)

19.   Ficar a nove, não entender nada do que ouviu.

20.   Atramoçar, aborrecer, interferir com, maçar (in Cristóvão de Aguiar) (São Miguel)

21.   Calzins, pequeno copo, geralmente destinado a beber aguardente ou bebidas finas

22.   Abafado, O vinho abafado é um vinho tradicional dos Açores, constituindo uma tradição na costa norte de São Miguel, onde a abundância de pomares e a produção frutícola excedentária é frequentemente aproveitada para a feitura de licores, vinhos abafados e compotas. No caso dos vinhos abafados, trata-se de um género vinícola com elevado teor alcoólico cuja fermentação é interrompida através da adição de aguardente ou álcool, permanecendo mais ou menos doce (uma vez que o açúcar natural da uva não se transformou em álcool). Transformação licorosa do típico vinho de cheiro micaelense, o abafado é considerado o vinho do Porto dos Açores, em resultado de um processo de laboração que dispensa o recurso a corantes ou conservantes. (São

24 Piteiro, aquele que bebe muito (Terceira, Flores

 

fotos rib gr chronicaçores2 ver imagens aqui

 

[1] Santa Maria ilha-mãe, O Pastor das Casas Mortas, São Miguel: A Ilha esculpida e a Ilha Terceira Terra de Bravos

[2] As Vinhas do Pico

[3] Ilhas do Triângulo, coração dos Açores numa viagem com Jacques Brel

autoapresentação Lajes do Pico 10 agosto 2011 museu dos baleeiros

Boa noite a todos e obrigado pela vossa presença

A ChrónicAçores retrata os meus amores ilhéus. Além da literatura dos Açores, viaja de Bragança à Austrália, e aos meus amores por São Miguel, Santa Maria, São Jorge, Faial e Pico.

Aliás a inquietude persegue-me desde que deixei a Europa em 1973 e me abri ao conhecimento universal e multicultural. Adquiri uma errância mais própria de nómadas ciganos do que das origens sedentárias de marrano galaico-português. Esta inconstância assola-me ainda mais desde que me arquipelizei nos Açores há mais de seis anos. Sou conhecido pela infidelidade no amor às ilhas que habito. De cada vez que saio da Ilha verde - e visito ou conheço nova ilha – enamoro-me loucamente como um jovem adolescente de sangue quente em busca de paixões avassaladoras como são os amores da juventude. Só posso viver numa mas em todas quero estar em simultâneo, pois nelas me sinto em casa.

Como pode uma pessoa vinda de outras culturas e continentes entender estas ilhas e suas idiossincrasias? Pois bem, eu não só acredito em multiculturalismo, como sou um exemplo vivo do mesmo. Nasci numa família mesclada de Alemão, Galego, Português e Brasileiro do lado paterno e do lado materno, Português e marrano, sangue de judeus conversos. Só tarde me apercebi desta herança judaica que foi tão importante no povoamento destas ilhas.

Aos 23 anos publiquei o meu primeiro livro de poesia “Crónicas do Quotidiano Inútil”. Depois por cortesia do exército colonial fui defender o agonizante Império Português em Timor (1973 1975) onde fui Editor-chefe do jornal A Voz de Timor em Díli, antes de ir à Austrália e decidir adotá-la como pátria futura.

Comecei a interessar-me pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialetos em Timor. Desde 1967 dediquei-me ao jornalismo (rádio, televisão e imprensa escrita) e durante 24 anos escrevi sobre o drama de Timor Leste enquanto o mundo se recusava a ver essa saga.

De 1976 a 1982 desempenhei funções executivas na administração da Companhia de Eletricidade de Macau. Ali também fui Redator, Apresentador e Produtor de Programas para a TDM, RTP Macau e TV de Hong Kong. Depois, radicar-me-ia em Sydney (e, mais tarde, em Melbourne) como cidadão australiano. Na Austrália estive sempre envolvido nas instâncias oficiais que definiram a política multicultural do país e ainda hoje me definem. Fui Jornalista no Ministério do Emprego, Educação e Formação Profissional e no Ministério da Saúde, Habitação e Serviços Comunitários além de ter sido Tradutor e Intérprete no Ministério da Imigração e no Ministério de Saúde de Nova Gales do Sul.

Divulguei a descoberta da Austrália e vestígios da chegada dos Portugueses (1521-1525, mais de 250 anos antes do capitão Cook). Igualmente difundi a existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (há quatro séculos). Como Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators & Interpreters), lecionei em Sidney na Universidade UTS, Linguística/Tradutologia e Estudos Multiculturais a candidatos a tradutores e intérpretes e por mais de vinte anos, fui responsável pelos exames dos Tradutores e Interpretes na Austrália (NAATI National Authority for the Accreditation of Translators & Interpreters).

Fui Assessor de Literatura Portuguesa do Australia Council, na UTS Universidade de Tecnologia de Sidney (1999-2005), publiquei trabalhos em jornais e revistas académicas/científicas, e apresentei temas de linguística/tradutologia e literatura na Austrália, Portugal, Espanha, Brasil, Canadá, China, etc.).

Em 1999, escrevi o ensaio político “Timor Leste: o dossiê secreto 1973-1975”, a que se seguiu em 2000 a monografia "Crónicas Austrais 1976-1996". Em 2005 compilei e publiquei o "Cancioneiro Transmontano 2005" e outro volume dos contributos para a história "Timor-Leste vol. 2: 1983-1992, Historiografia de um Repórter" (> 2600 pp., edição de autor CD).

Entre 2006 e 2010, traduzi, entre outras, obras de autores açorianos para Inglês, nomeadamente de Daniel de Sá[1], de Manuel Serpa[2], Victor Rui Dores"[3]. Em março 2009 publiquei o volume 1º da "CHRÓNICAÇORES: uma Circum-navegação, De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores, " cronicando as minhas viagens em volta do mundo.

Organizo desde 2001 os Colóquios Anuais da Lusofonia que ocorreram no Porto, Bragança. Ribeira Grande e Lagoa (São Miguel, Açores), Brasil e Macau e sou atualmente o Editor dos Cadernos (De Estudos) Açorianos, coordenados por Helena Chrystello e Rosário Girão e livremente acessíveis em linha.

Este segundo volume continua a minha circum-navegação. Na lenda havia um Rei Artur, Sir Galahad, os cavaleiros da Távola Redonda e a busca pelo Santo Graal. Aqui não há Dom Quixote, nem Sancho Pança nem moinhos de vento, contra os quais espadanar. Há apenas um poeta utópico, sequioso de aprender outras línguas, hábitos e culturas. Da infância em Trás-os-Montes, parti à conquista do “lulic” em Timor Português, dos hippies em Bali (Indonésia), sobrevivi ao “Anno Horribilis” no Verão Quente de 1975 Portugal, atravessei as Portas do Cerco na China de Macau, percorri a Austrália Ocidental, Vitória e Nova Gales do Sul, com passagem pelo Oriente do Meio e seus emirados, Europa, Ásia e Pacífico Sul, antes de redescobrir o Brasil e Portugal. Por fim, pairei nos ares como um milhafre sobre a ilha de S. Miguel donde voei em conquista de Santa Maria, Faial, Pico e S. Jorge. Se na Austrália encontrei uma tribo aborígene a falar crioulo português com mais de 450 anos, descobri na antiga Bragança a mátria e nos Açores descobri o que a maior parte do mundo desconhecia: uma pujante literatura.

Esta viagem leva-nos num périplo pelo mundo em que vou cronicando tal como Marco Polo, as terras, as gentes e os costumes e tradições. Da análise política, social e pessoal parto à descoberta de culturas antes de regressar ao seio duma Lusofonia sem raças, credos ou nacionalidades, até me radicar na “Atlântida” onde desvendo e divulgo a fértil literatura açoriana catapultadora de autonomias e independências por cumprir.

Falta aqui agradecer à minha mulher por ter casado comigo. Sem isso estaria na Austrália e nunca teria conhecido os Açores e a açorianidade de que falo neste livro. Acredito na multiculturalidade e dela absorvi e aprendi mais nesses países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos compreendi que é possível preservar a nossa língua e cultura mesmo sem ter uma escrita por mais de 50 mil anos, com os chineses descobri o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, com os timorenses, macaenses e tantos outros aprendi outras partilhas de saber que ainda hoje fazem parte do meu quotidiano.

Como se pode optar por ficar aqui nestas ilhas e descurar todos os mundos que existem para lá deste arquipélago? É simples, uma pessoa fica ilhanizada como Almeida Firmino em A Narcose, como se os outros mundos não tivessem importância a não ser para divulgar o segredo da existência de uma importante literatura de cariz açoriano. Foi preciso descer à Praia da Viola na Lomba da Maia onde vivo, subir ao Monte Escuro e aos sempiternos verdes montes, ver as vacas alpinistas e o mar que nos rodeia para entender a açorianidade que nos leva a escrever.

Depois, é preciso viajar entre estas nove filhas de Zeus e entender os maroiços do Pico ao sabor do seu Verdelho, calcorrear o Barreiro da Faneca, pisar as areias esbranquiçadas de Porto Pim e meditar em frente ao ilhéu do Topo. É essencial partir à descoberta de cada ilha, sonhando com Dias de Melo nas agruras e na fome dos baleeiros, reler o Mau Tempo no Canal, parar num qualquer aeroporto e entender o Passageiro em Trânsito do Cristóvão de Aguiar, ler em voz alta a poesia do Fogo Oculto de Vasco Pereira da Costa, Viajar com as Sombras ou com o Tango nos Pátios do Sul de Eduardo Bettencourt Pinto, depois de revisitar as pedras arruinadas do Pastor das Casas Mortas ou a Grande Ilha Fechada de Daniel de Sá. Escolhi estes que melhor conheço mas há muitos outros autores açorianos que não só merecem ser lidos, como deveriam constar obrigatoriamente de qualquer currículo de ensino.

Toda a minha vida foi uma circum-navegação. Se nos anos 70 designei para pátria a Austrália nunca deixei de conjugar a outra de Fernando Pessoa, a língua portuguesa. Hoje tenho como mátria Bragança mas aos açorianos o devo pois foram eles que me ensinaram o amor às raízes.  Ao vê-los tão amantes das suas terras tive de descobrir as minhas origens em Bragança onde vivi menos tempo do que em qualquer outro lugar. Sinto como todos transportam esse sentimento de pertença aqui e no estrangeiro.

Quando aqui cheguei desconhecia quase tudo sobre as ilhas, mas descobri no Dicionário do Morais os termos “chamados” açorianos. A língua recuada até às origens e adulterada pelo emigrês que trouxe corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Tratei de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à sua infância, sem perder de vista que as ilhas reais já não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Nesta geografia idílica não busquei a essência do ser açoriano. Existirá, decerto, em miríade de variações, cada uma vincadamente segregada da outra. Também não cuidei de saber se o homem se adaptou às ilhas ou se estas condicionam a presença humana, para assim evidenciar a sua açorianidade. Limitei-me a observar e a analisar o que me rodeia e depois passei ao papel essas crónicas do mundo que me envolve. Aliás, estou convencido de que uma das razões para haver aqui tantos escritores se deve exatamente ao facto de vivermos nestas ilhas. Cito do livro:

A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver dilatar nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu. Perdi sotaques mas não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo a reboque, colar multifacetado de vivências de mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, depois em um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente Austrália, e na ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar a esta Atlântida Açores.

Tudo começou quando traduzi autores açorianos como Daniel de Sá e Victor Rui Dores entre outros. Acabei cativo e apaixonado. Tive de escrever para me libertar da poção mágica do arquipélago e daí nasceu “ChrónicAçores: uma circum-navegação”. Por isso escrevi  

Que Dias de Melo era um operário, agricultor, pescador, escultor que trabalhava, ceifava, pescava e esculpia a palavra como um baleeiro, pescador, marinheiro, mestre de lancha da ilha do Pico. Escreveu como se da janela da sua “Cabana do Pai Tomás” no Alto da Rocha na Calheta de Nesquim, vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras

Que Cristóvão de Aguiar psicanalisou as gentes e a terra que o viram nascer mas adotou o Pico como nova ilha mátria em 1996. Para ele a escrita nunca será catarse, título do seu mais recente livro, pois é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha...Como diz (Relação de Bordo II pp. 199-200) Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado...trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos...

Que Vasco Pereira da Costa é um apaixonado que representa a universalidade da açorianidade nos seus contos e poemas, sem jamais descurar o telurismo na sua escrita, sendo sarcástico e crítico do falso cosmopolitismo insular quer na crítica à mentalidade medíocre quer no provincianismo balofo que critica na multiplicidade da sai obra que vai desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia

 

Num mundo marcadamente materialista como este, decidi que a minha herança para os filhos seria esta riqueza dos conhecimentos que colecionei ao longo da minha circum-navegação e que agora condensei em livro. Aprendi mais nos países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos entendi como é possível preservar a língua e cultura mesmo sem haver escrita há 60 mil anos. Com os chineses apreciei o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, e com os timorenses, macaenses e outros aprendi saberes que fazem parte do meu quotidiano. É disso que este livro fala. E continuo a citar alguns excertos:

Tivesse eu fôlego e iria ao mítico Pico da Atlântida submersa, cujo magnetismo me fascina ao ponto de desejar, vezes sem conta, mudar de armas e bagagens para este Triângulo Sagrado onde prometo fazer imolações e outros sacrifícios nas aras do destino. Não sendo das Bermudas este triângulo isósceles, que nunca escaleno obsceno, seria ótimo pousio final para as minhas cinzas quando chegar a estação de fazer como as cobras e trocar de pele. Despir a bela capa colorida terrena, de seis decénios, e vestir o cinzento das cinzas que seriam lançadas nesta lendária Atlântida de continentes submersos cujos picos vocês habitam.

Aqui, na Gruta das Torres senti-me um salteador da Arca perdida à sombra do Pico que, ora se esconde, ora se revela num jogo constante do gato e do rato, que entusiasma e arrebata. Sinto o sortilégio. O mágico cume tem um íman que atrai a visão e nos desconcentra, sempre insistindo para o contemplarmos nas suas mil e uma facetas alteradas a cada segundo.

Quero salientar que é uma honra estar aqui nesta vila que foi a primeira da ilha, feita de gente que ao longo dos séculos sempre soube arcar com todas as dificuldades e domar a lava com ferros e marrões até amontoarem a pedra em enormes maroiços”, autênticos monumentos num rendilhado de paredes, tarefa hercúlea como tantas outras que as gentes do Pico empreenderam ao longo de cinco séculos de colonização da agreste ilha, sem esquecer a luta titânica que nos seus pequenos botes travaram durante um século contra a baleia e ora descobrem novas formas de vida.

Da última vez que aqui estive, em pleno centro de São Miguel Arcanjo, ao andar rumo à casa do escritor Cristóvão de Aguiar deparei com uma camioneta de passageiros, estacionada, aguardando o início de nova semana de trabalho. Ali me ocorreu a ideia peregrina de como seria culturalmente interessante a aventura de “pedir emprestada” a carripana, começar a percorrer as aldeias (ditas freguesias nas ilhas) e gravar as histórias que os passageiros fossem contando. A viagem não teria destino. Duraria tanto quanto as histórias dos seus passageiros. Não se cobrariam bilhetes. Pararia em todos os locais, para que contassem histórias e lendas do local onde paravam. Que livro maravilhoso não daria esse compêndio de histórias apanhadas ao acaso daqueles que tomassem o autocarro dos sonhos. Assim me despedi da ilha prometendo voltar com mais tempo.

Termino dizendo que esta é a magia da vossa ilha que se insinua como uma amante insaciada, mulher fatal capaz de marcar os destinos de todos os homens que têm a sorte de a encontrar.

Bem hajam pela vossa paciência para me ouvirem pois vou terminar lendo o único texto em que uso termos típicos das nossas nove ilhas.

 

ver imagens images/stories/videos/chronicaçores pico 10ago20111.pdf  

[1] Santa Maria ilha-mãe, O Pastor das Casas Mortas, São Miguel: A Ilha esculpida e a Ilha Terceira Terra de Bravos

[2] As Vinhas do Pico

[3] Ilhas do Triângulo, coração dos Açores numa viagem com Jacques Brel

   Porto Formoso, 27 de abril de 2014

 

9 ilhas, 9 escritoras, de Helena Chrystello e Maria do Rosário Girão

 

 

A antologia 9 ilhas, 9 escritoras aparece como um espaço escrito de homenagem ao ser-se ilhéu no feminino.

Sem pó-de-arroz, batom ou lápis kohl, são as palavras que enfeitam estas nove mulheres.

Melhor: são estas nove mulheres que enfeitam as palavras, que as adornam com os seus sentimentos, que as refrescam nas suas memórias, as iluminam com contundência e, pela cuidada exatidão com que as escolhem, as tornam suas.

«Salvé» Judite Jorge, Brites Araújo, Luísa Ribeiro, Joana Félix, Natália Correia, Madalena Férin, Maria Luísa Soares, Renata Botelho e Madalena San-Bento. «Salvé», no fundo, às ilhas desta coletânea. As ilhas… “As”: determinante, artigo definido, feminino, plural.

Apesar da natural pluralidade das perspetivas autorais, Helena Chrystello e Maria do Rosário Girão conseguem, pela primeira vez, reunir uma seleção de textos onde se lê a verdade feminina do nosso arquipélago e onde se aborda, com a elaborada simplicidade que se deseja em cada mulher de bom gosto, temáticas tão nossas como a insularidade, a liberdade, a emigração ou o amor.

Neste tributo à mulher-escritora-açoriana dá-se voz a quem nunca se calou e espaço a quem sempre existiu.

Procuraremos, então, nesta breve apresentação, revelar as possíveis principais temáticas da prosa e da poesia dos excertos que constituem a obra 9 ilhas, 9 escritoras, declarando, desde já, que não será fácil fazê-lo, pois a profundidade da linguagem desta obra, por vezes desconcertante, não deixa ninguém indiferente e absorve, de tal forma, a mente que poderá não haver espaço para muito mais.

Assim, procurando linhas comuns que alicerçassem mais facilmente esta exegese, deparamo-nos, desde logo, com a temática da insularidade.

Todas estas escritoras, selecionadas pela Helena Chrystello e pela Maria do Rosário Girão, nasceram em ilhas açorianas e sentem tal facto como condição particular.

Não há espaço, na sua poesia ou prosa, para as simplórias e limitativas definições geográficas do ser-se ilha. Ser ilha é mais do que viver rodeada de água; ser ilha é ter um estatuto e estar num estado que, não se escolhendo, torna-se parte intrínseca de nós:

 

«uma ilha já não é uma ilha hoje

(…) uma ilha já não é de muros de água (…)

Libertei-me da ilha no meu corpo

Mas tenho-a enquistada na minha alma.»

(Madalena Férin)

 

Estas palavras de Madalena Férin transportam-nos para a indelével certeza de que a ilha cresce connosco e é parte de nós. Mais, a ilha somos nós, é a nossa vivência e forma de ser interior. Como nos diz Natália Correia, somos

 

«destino de água salgada

Principiado na névoa»

 

«[Somos] aquela ilha esquecida

(…)

Que, à noite, eu vou habitar;

[Somos] aquela ilha encantada (…)

A ilha não descoberta (…)

A ilha desconhecida (…)

Aquela ilha distante (…)

Aquela ilha esquecida (…)»

 

E só poderá sentir ou falar sobre isso quem, no fundo, também for ilha porque, como refere Maria Luísa Soares,

 

«quem nunca foi ilha pensa que sabe muita coisa sobre o assunto e rodopia à volta de teorias mais ou menos utópicas, logros espantosos que apetece desmistificar.

Ser ilha não é coisa que se escolha nem destino fácil de assumir.»

 

Descrita, assim, levemente, a ilha que algumas encerram, não fique o leitor-não-ilha com a ideia de uma internalização e uma introspeção tais que não haja espaço para mais nada.

À ilha-mãe vai sobrepor-se a ilha-redoma, a ilha-comunhão, a ilha-gerada e é nisto que reside uma outra beleza destas 9 ilhas, 9 escritoras: a singularidade de olhares e a antitética abordagem de uma mesma realidade. Pois se é certo que a ilha é transportada por nós, também é igualmente certo que o que mais ansiamos é ver e rever, precisamente, a ilha.

Somos ilhéus, a ela pertencemos.

Todavia, e porque no feminino, Brites Araújo, espelho da vertiginosa atração pela ilha, não é ilhéu, mas

 

«Ilhoa, pela graça dos deuses

 

«O que eu gosto de ilhas! … Ao arrepio de outros ilhéus, queixosos dos achaques da insularidade, tenho um fascínio quase existencial por tudo o que seja pedaço de terra cercado de mar por todos os lados.(…) [No entanto], gosto de pensar que, simplesmente, as ilhas acontecem-me. (…)»

 

E esta forma arreigada de sentir, contida na deliciosa exclamação inicial, obedece a rituais próprios, como continua a mesma autora:

 

«(…) [mas] às ilhas, e das ilhas, só se chega verdadeiramente, e só se parte, por mar. O avião, este despurado prestidigitador, atrapalha os ritmos, entorpece os sentidos, confunde tudo. Ainda mal se partiu, já se está a chegar. Aldraba-se na distância, devora-se o tempo, enxovalha-se essa digna solidão de esfinge que é a natureza própria da ilha. E não se chega a conceder ao peito a ânsia de horizonte e o alvoroço do avistamento (…) nesse processo lento dos sentidos (…) que é ver a ilha ir-se instalando cá dentro.»

 

Metáfora por excelência do ser humano, a ilha está, assim, dentro de cada escritora e a ilha molda formas, espaços e seres.

Nos Açores encantados são as ilhas as ferramentas primordiais, as alfas e ómegas que acompanham a evolução:

 

«(…) e o bater dos teus átomos disse aquilo que tu não querias dizer:

Que foste calcada pelos dinossauros gigantes,

Que serviste de travesseiro à mulher das cavernas,

Que escutaste o grunhido do ser primitivo,

Que sorriste condoída ao seu amplexo brutal,

Ou se encostou a ti Eva expulsa do Eden terreal (…)»

(Madalena Férin)

 

A ilha é mãe, tal como a pátria é mátria.

Com Madalena San-Bento descobrimos isto pela mão do seu Ismael (tão sedento de descobertas como o seu homónimo da baleia) que, conduzindo-nos pela paisagem, revela a ligação umbilical que nos une à terra, dá conta da fertilidade do solo, como se grávido de sementes estivesse, recupera as voluptuosas formas dos montes, aponta o que foi gerado e fala do ar da ilha que, como uma sonda, nos invade o corpo para melhor nos conhecer e sentir.

Assim, é quase com pena que saímos desta realidade, mas logo percebemos que a ilha só prende quem verdadeiramente quer nela ficar e com ela comungar.

De facto, Judite Jorge conduz agora o leitor pela ilha que liberta os seus filhos e os entrega a terras distantes. E, uma vez mais, a descrição destas ousadias e destes sonhos de emigração por terras desmareadas é única pelas mãos desta escritora:

 

«[e vinham nas sacas] gamas de morango (…)[dos] primos que no natal mandavam postais com dizeres em inglês (…)[e às vezes] uma nota de cinco dólares (…).[Os primos] que se iam embora no final do verão prometendo voltar e às vezes nunca mais o faziam (…)»

 

Feita de cheiros, imagens e gostos, a descrição aqui lida é única e só possível porque a mulher sente, e vê, e fala, e conta de maneira diferente do homem.

Vai-se, assim, saindo desta ilha que até agora calidamente nos acolheu no desvendar da escrita destas 9 escritoras açorianas.

Embora as mais das vezes provocadas por fenómenos naturais («como se o ventre da terra conjurasse todos os urros, todas as rouquidões do mundo e ali mesmo os despejasse» - Brites Araújo), a partida das ilhas também aconteceu (no início e esporadicamente) no feminino, pela vontade de quebrar com tradições que relegavam a Mulher à submissa condição do lar:

 

«(…) Enquanto mais velha das raparigas, cabia a Maria tomar conta dos irmãos mais novos e, nas manhãs em que a mãe estava para o mato, fazer uma meda de bolo do tijolo. (…) Tudo isto era Maria obrigada a saber e a fazer (…).» - Judite Jorge

 

A universalidade desta Maria transporta-nos para a realidade de tantas outras que, ainda por aí, consomem vivências desprovidas de sentido, abdicando de si em prol de outros impostos. Mas esta Maria, na continuidade do texto de Judite Jorge, acaba por anular as amarras da tradição e do género que a prendiam em casa e parte para a América, para o desconhecido.

Na obra partimos com ela e com outras personagens, rumo à descoberta de ouros espaços que espreitam por entre a prosa e a poesia destas 9 escritoras açorianas.

Passamos, assim, também pelas Califórnias de abundância, olhamos o Tejo («o Tejo [que] não tinha o cheiro forte do mar das ilhas. (…) o Tejo [que] era mar para quem não tivesse vivido ao pé do mar» - Judite Jorge), pastoreamos casas mortas, e tocamos na lava que esculpiu o Penedo Negro.

Nesta sábia compilação das suas obras, tudo é permitido e nada aparece por acaso.

Aqui, nesta obra, junta-se a poesia a tarefas domésticas (como o faz Luísa Ribeiro que «inclinada na água parada / da pia (…) / [volta] a correr e apanhará a roupa» ou quando Joana Félix recebe, na morada da sua escrita, Manuel com «(…) uma alegre tristeza que / se assemelha ao quente-frio da sobremesa»); assiste-se a uma greve de relógios (pois «já que não havia nada de assinalável na vida da pessoa que vivia naquela casa, para quê continuar em funções?», diz-nos o relógio de Maria Luísa Soares); enumeram-se as espécies autóctones (« (…) os homens carregando os cestos cheios de sargos, moreias, caranguejos, lapas» pela mão de Judite Jorge, ou na pergunta retórica de Luísa Soares: «Nunca ouviram falar das orgias noturnas dos cagarros?») e visitam-se espaços sagrados como o convento («A irmã Mercês. / A porta pesada / com fechadura negra de ferro. / O cheiro a madeira e / o chão de pedra. / (…) a árvore junto ao muro / com gradeamentos, / no pátio de relva.» - Joana Félix).

E deparámo-nos com escritoras que de tão belas na construção semântica e sintática das suas obras não temem recuperar outras construções e outros destinos; indagar por eles e fazer, uma vez mais, da sua escrita arma, suporte, cinzel de mentes.

 

«Que é de Abril?                                                

Que é das manhãs abertas sobre Abril,

amanhecidas por um país em sol de searas?

Que é dos olhos rubros de cravos,

Empunhados como bandeiras de futuro?

Que é do poema, do canto,

Da voz que se erguia da rua em povo?

Que é da alegria feita urgência

De haver um país a haver mais à frente?

Que é do amigo, do companheiro, do camarada

Inscritos na flor do peito em liberdade?

Que é de sermos a mão e o sonho,

O braço e o abraço,

A garganta e a voz?

Que é de Abril?

Que é de nós?»

- Brites Araújo

 

A escrita é, agora, espaço de denúncia e delação que cala fundo em quem a lê.

Na linha da intervenção ideológica e política, volvidos 40 anos da revolução e em homenagem a este movimento de quase recuperação da humanidade dos portugueses, olhámos, também, para a temática da descolonização com Luísa Soares que, na cruel delicadeza de cada palavra, refere:

 

«desorientados bichos

Que nós fomos

Na pressa ensandecida de

Freneticamente

Te trocar por outra terra

Outro destino»

 

A atrativa crueza da linguagem é outra das mais importantes características desta obra de Helena Chrystello e de Maria do Rosário Girão: tudo é dito, pela mão das 9 escritoras, de forma tão pura que é, aparentemente, dura. Não há, em nenhum dos textos selecionados, subterfúgios, esconderijos ou dissimulações de linguagem. Há, isto sim, espaço para a interiorização do que nos é dito, para a sua apropriação, a partir da exatidão visceral, da natureza primitiva de cada palavra. A linguagem surge, assim, tão natural como qualquer outra função orgânica. Como adianta Joana Félix:

 

«a palavra é

Insubstituível

Substancial.

É aquela, só aquela

E por mais que tentes

Nenhuma outra

Se acomoda ali

No lugar dela»

 

E esta é a regra para entrarmos, desta feita, no mundo feminino do Amor, onde descobriremos que nem sempre se ama porque se quer e que nem sempre se ama o que se é… As palavras exatas isto nos dirão.

Na intimidade do sentimento, devoram-se, então, as páginas do Diário das Mulheres Toleradas de Madalena San-Bento:

 

«Desde que a consciência das coisas me nasceu, que amei o meu corpo, e é por isso mesmo que detesto agora perdê-lo, assistir a esta derrota infligida pelo tempo. Talvez os outros ainda não o notem, ainda não o sintam; mas eu sei-o: O tempo urge e nada acontece.

Porque é preciso uma grande intimidade com a carne e o cetim das maciezas para saber desde logo quando o tempo avança e a juventude perde.

Tive uma cintura heroicamente delgada, ancas prósperas mas redondas e curvilíneas, ventre firme, com a pele brilhante e humedecida à volta do umbigo:

(…)

Cresci só, sem um mapa, sem uma revelação, sem a orientação de ninguém.

Venerei este corpo por múltiplos motivos. Por ser a máquina abstracta e requintada que é, a obra decorativa que me divertiu com certas subtilezas, e por ser o meu, aquele que, a palpitar na solidão, eu sinto.»

 

E sofremos com o não amor de Senhorinha e com a ambição amorosa de Teresa em amar o que, para já, não é:

 

«TERESA:

André foi uns dias ao Continente. Tive tantas saudades!

Porém, quando chegou, amei-o do mesmo modo, com reticências... Estou cansada de amores reticentes! (…) Longe do meu desejo, da sua adoração, morro lentamente e apodreço pelos dias abaixo; vou correndo por aí como um cadáver andante...

Longe do meu amor. Que é ele, o homem que imagino e ambiciono: exactamente a sua pessoa quando não está comigo. (…)

 

SENHORINHA

Amei-te, sim, de todas estas vezes sem rumo e sem razão, apenas porque o coração era carente e necessitava amar.

(…) Mas nunca te amei tanto – e sei-o perfeitamente agora – como no dia em que o teu amor me abandonou; senti que tinha esperado sempre (embora afirmasse constantemente o contrário) um milagre, a fantástica irracionalidade de que não desistisses de mim.»

 

E paramos, diferentes, perante a incrível escrita intimista e visceral de Renata Botelho:

 

«(…) tenho frio e uma confissão

Para te trazer: traí-te tanto

Com outros versos, corpos

Belíssimos, esguios e quentes

Aninhando-se comigo na cama.

Trago esta culpa nos ossos,

Enganei-te letra após letra (…)

 

Nas mãos desta autora, a escrita é, de facto, orgânica; e sente; e porta-se; e comporta-se; e pensa como ser humano. São as palavras mais do que mensageiras para Renata, porque são autoras do que transportam:

 

«nas vozes é assim:

Só a última palavra

cabe no beijo;

o lábio segue-a e

poisa húmido,

na sílaba tónica.»

 

Há a vontade de, quase, sorver este amor, de o tornar definitivo nas palavras de carne e sangue que se utilizarão para o definir:

 

«escreve-me

Cartas em papel, com cheiro a tinta

E palavras repetidas

Daquelas que

Já não se dizem.

Mas que sejam

de carne

e de sangue para

enganar a ausência»

(Joana Félix)

 

E o toque vaidoso também desponta nas palavras de Luísa Ribeiro que, de tão femininas, se poderiam usar ao pescoço:

 

«gostava de te chamar um superlativo

Subtrair-te os limites do nome

Ter um acrónimo

 

Pô-lo ao peito

Em jeito de colar»

 

Como todo que é, esta obra agora lançada, da autoria da Helena Chrystello e da Maria do Rosário Girão, traz a lume não só o desejado e merecido tributo à mulher-escritora açoriana, mas, acima de tudo, em nosso entender, o espaço das letras no feminino universo açoriano onde é possível ver e constatar, em nove diferentes exemplos, a riqueza mais pura, o sentir mais profundo, o dizer menos contido da escrita no feminino, simultaneamente local e geral. A excelência dos textos selecionados destas nove escritoras açorianas abre ao leitor diferentes portas para a significação do ser-se mulher, do ser-se ilhéu e do ser-se palavra. Abre-lhe caminhos tão cosmopolitas como os da Fajãzinha e tão rurais como os de Rhode Island…

Para estas escritoras, celebra-se cada existência, cada momento, cada fragmento. Em cada canto espreita a inspiração e tudo é vontade de viver de forma escrita. Até as agendas assim estão anotadas:

 

«Já não tenho tempo

Para tristezas,

Fiz as contas

E tenho a agenda

Cheia de sorrisos!»

 

À fertilidade da significação, junta-se a facilidade da escrita e, neste tributo a algumas Escritoras Açorianas (que assim não se chama, mas que se poderia assim chamar), vê-se que cada palavra puxa a seguinte, numa catadupa de vida própria e incontrolável. Diz-nos a Joana Félix:

 

«Dizem que depois de escritas

As palavras passam a ter vida (…)»

 

E, de facto, assim é. Ler esta obra é como beber de uma fonte fresca que corre sem parar, que nos enche a alma e nos aviva as memórias pela proximidade com que as trata.

Desfolhar este livro é como penetrar no ventre literário de cada uma destas escritoras e observar a umbicalidade possível que as une à sua obra.

Ler esta inteligente e única compilação é ouvi-la dizer-nos, como nos ensina com graça Maria Luísa Soares,

 

«queres-me querer?»

 

E nós dizermos, eu quero.

 

Lurdes Alfinete

O primeiro volume, em edição do autor, de CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL saiu em maio 1972, com 32 páginas, dado que a censura (o célebre lápis azul) entendeu que a poesia juvenil e adolescente do autor não se conformava com os ditames do Estado Novo (1926-1974) e como tal cortou impiedosamente mais de 60 outras páginas que posteriormente viriam a fazer parte do vol. 2. Mereceu menção de Torquato da Luz no Suplemento Literário de o Diário de Lisboa em 15 de junho de 1972.

já não há leitores de poesia? aqui estão as minhas obras completas, 40 anos de vida literária.
A AUTOAPRESENTAÇÃO FOI FEITA NA SOLMAR NO DECURSO DO 19º COLÓQUIO DA LUSOFONIA EM MARÇO 2013

pretende adquirir um exemplar então peça-o à Livraria da Editora (Calendário de Letras)www.calendario.pt

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Para: Calendário
Cc:
Assunto: PLANO REGIONAL DE LEITURA. ATUALIZAÇÃO DA LISTA DE OBRAS RECOMENDADAS

Correio Eletrónico

Sua Referência.

Sua Comunicação de

Nossa Referência

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Nº.

MAIL-S-DRE/2013/683

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Proc.

DAI/19.16

Exmo (a) Senhor(a)

Diretor(a) da Editora Calendário das Letras

Assunto:

PLANO REGIONAL DE LEITURA. ATUALIZAÇÃO DA LISTA DE OBRAS RECOMENDADAS

 

No âmbito do Plano Regional de Leitura, e na sequência da revisão anual da lista de obras recomendadas, informo V. Exª que a obra abaixo indicada, publicada pela vossa editora, foi integrada nas obras de leitura recomendada do Plano Regional de Leitura da Região Autónoma dos Açores:

Girão, Rosário; Chrystello, Helena, Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos (2 volumes)

  • Mimoso, Anabela, Contos Tradicionais Açorianos de Teófilo Braga
  • Mimoso, Anabela, Aquela Palavra Mar

A lista completa encontra-se disponível no sítio http://www.edu.azores.gov.pt/projectos/planoregionalleitura/Paginas/Livros-recomendados.aspx

Com os melhores cumprimentos

A COORDENADORA DO PLANO REGIONAL DE LEITURA

MARGARIDA QUINTEIRO

LS

Secretaria Regional da Educação, Ciência e Cultura, Direção Regional da Educação

Paços da Junta Geral - Carreira dos Cavalos, Apartado 46 9700-167 Angra do Heroísmo

Telefone: 295 401 100-E-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.">Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

apresentação no Faial

 

Boa noite a todos e obrigado à Dra. Carla Cook pela sua excelente apresentação que bastante me lisonjeia. Quero salientar que é uma honra estar aqui naquela que já foi a Insula de Ventura e Ilha de São Luís de França.

A ChrónicAçores retrata os meus amores ilhéus. Além da literatura dos Açores, viaja de Bragança à Austrália, e aos meus amores por São Miguel, Santa Maria, São Jorge, Faial e Pico.

Aliás a inquietude persegue-me desde que deixei a Europa em 1973 e me abri ao conhecimento universal e multicultural. Adquiri uma errância mais própria de nómadas ciganos do que das origens sedentárias de marrano galaico-português. Esta inconstância assola-me ainda mais desde que me arquipelizei nos Açores há mais de seis anos. Sou conhecido pela infidelidade no amor às ilha que habito. De cada vez que saio da Ilha verde - e visito ou conheço nova ilha – enamoro-me loucamente como um jovem adolescente de sangue quente em busca de paixões avassaladoras como são os amores da juventude. Só posso viver numa mas em todas quero estar em simultâneo, pois nelas me sinto em casa.

Quando aqui cheguei desconhecia quase tudo sobre as ilhas, mas descobri no Dicionário do Morais os termos “chamados” açorianos. A língua recuada até às origens e adulterada pelo emigrês que trouxe corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Trata-se de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à sua infância, sem perder de vista que as ilhas reais já se desfraldaram ao enguiço do presente e não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Nesta geografia idílica não busquei a essência do ser açoriano. Existirá, decerto, em miríade de variações, cada uma vincadamente segregada da outra. Também não cuidei de saber se o homem se adaptou às ilhas ou se estas condicionam a presença humana, para assim evidenciar a sua açorianidade. Limitei-me a observar e a analisar o que me rodeia e depois passo ao papel essas crónicas do mundo que me envolve. Aliás, estou convencido de que uma das razões para haver aqui tantos escritores se deve exatamente ao facto de vivermos nestas ilhas. É essencial partir à descoberta de cada ilha, sonhando com Dias de Melo nas agruras e na fome dos baleeiros, reler o Mau Tempo no Canal, parar num qualquer aeroporto e entender o Passageiro em Trânsito do Cristóvão de Aguiar, ler em voz alta a poesia do Fogo Oculto de Vasco Pereira da Costa, Viajar com as Sombras ou com o Tango nos Pátios do Sul de Eduardo Bettencourt Pinto, depois de revisitar as pedras arruinadas do Pastor das Casas Mortas ou a Grande Ilha Fechada de Daniel de Sá. Escolhi estes que melhor conheço mas há muitos outros autores açorianos que não só merecem ser lidos, como deveriam constar obrigatoriamente de qualquer currículo regional. Cito do livro:

A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver dilatar nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu. Perdi sotaques mas não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo a reboque, colar multifacetado de vivências de mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, depois em um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente Austrália, e na ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar a esta Atlântida Açores. Tudo começou a modificar-se quando traduzi Daniel de Sá e Victor Rui Dores entre outros. Acabei cativo e apaixonado. Tive de escrever para me libertar da poção mágica do arquipélago e daí nasceu “ChrónicAçores: uma circum-navegação”. Foram meus guias,

Dias de Melo que era um operário, agricultor, pescador, escultor que trabalhava, ceifava, pescava e esculpia a palavra como um baleeiro, pescador, marinheiro, mestre de lancha da ilha do Pico. Escreveu como se da janela da sua “Cabana do Pai Tomás” no Alto da Rocha na Calheta de Nesquim, vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras

Cristóvão de Aguiar que psicanalisou as gentes e a terra que o viram nascer mas adotou o Pico como nova ilha mátria em 1996. Para ele a escrita nunca será catarse, título do seu mais recente livro, pois é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha...Como diz (Relação de Bordo II pp. 199-200) Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado...trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos...

Vasco Pereira da Costa que é um apaixonado e representa a universalidade da açorianidade nos seus contos e poemas, sem jamais descurar o telurismo na sua escrita, sendo sarcástico e crítico do falso cosmopolitismo insular quer na crítica à mentalidade medíocre quer no provincianismo balofo que critica na multiplicidade da sua obra que vai desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia.

Se bem que a minha pátria seja a Austrália eu conjugo-a com a de Fernando Pessoa, a língua portuguesa. Se hoje tenho como mátria Bragança, aos açorianos o devo, pois foram eles quem me ensinou a ter amor às verdadeiras raízes onde quer que se viva. Ao vê-los tão amantes das suas terras tive de descobrir as minhas origens em Bragança onde vivi menos tempo do que em qualquer outro lugar. Sinto como todos transportam esse sentimento de pertença aqui e no estrangeiro.

Num mundo marcadamente materialista como este, decidi que a minha herança para os filhos seria esta riqueza dos conhecimentos que colecionei ao longo da minha circum-navegação e que agora condensei em livro. Aprendi mais nos países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos entendi como é possível preservar a língua e cultura mesmo sem haver escrita há 60 mil anos. Com os chineses apreciei o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, e com os timorenses, macaenses e outros aprendi saberes que fazem parte do meu quotidiano. É disso que este livro fala. Aqui, nesta ilha tudo me fascina desde o surrealismo dos Capelinhos a fazer esquecer a tragédia humana que lhe está associada até a essa visão paralisante do Pico. O mágico cume tem um íman que atrai a visão humana e nos desconcentra, sempre a pedir para o contemplarmos nas suas mil e uma facetas alteradas a cada segundo.

Tivesse eu fôlego e iria ao mítico Pico da Atlântida submersa, cujo magnetismo me fascina ao ponto de desejar, vezes sem conta, mudar de armas e bagagens para este Triângulo Sagrado onde prometo fazer imolações e outros sacrifícios nas aras do destino. Não sendo das Bermudas este triângulo isósceles, que nunca escaleno obsceno, seria ótimo pousio final para as minhas cinzas quando chegar a estação de fazer como as cobras e trocar de pele. Despir a bela capa colorida terrena, de seis decénios, e vestir o cinzento das cinzas que a lançar nesta lendária Atlântida de continentes submersos cujos picos vocês habitam.

Ao chegar à Horta pela primeira vez, comecei por essa instituição mundial que é o Peters. O resto vem nos livros. Não bebi o obrigatório gin-tónico mas sentira o peculiar e místico ambiente. “Cheira a Hemingway”, dissera, sem saber ainda que Jacques Brel por lá andara também. As baías deslumbram, dia ou noite, sob a sombra imponente do Pico. Este, ora se esconde, ora se revela num jogo constante do gato e do rato, que entusiasma e arrebata. Aqui há sortilégio. Esta terra marca e adoro-a. Nem demasiado grande, nem pequena, mas cosmopolita quanto baste. Logo no primeiro dia ouvi falar espanhol, italiano, holandês, sueco, finlandês, inglês, francês e português de vários quadrantes. E depois há sempre esta magia do Pico. De olhar para ele pelos olhos de quem está no meio do triângulo. Não é fácil tentar transmitir a atração irreprimível que esta ilha exerce não obstante as mil e uma ameaças de tremores de terra catastróficos e de vulcões semiadormecidos.

Longe vão os momentos de angústia pela ocupação Filipina, pelos ataques dos corsários, e os confrontos das guerras liberais, a que se seguiria a fase de riqueza das laranjas, dos baleeiros e do cabo submarino. Apesar de bombardeada pelos Alemães na 1ª Guerra, a Horta teve um longo período de declínio e enfrenta hoje o desafio de reabilitação urbana do seu rico património. Sem jamais perder a sua rica cultura, espera e deseja um novo Cônsul Dabney que a lidere rumo ao futuro regenerando as suas joias da Coroa. Não pode permanecer estática neste seu escadório frente ao altar do Pico e viver das crónicas de antanho. É por isso que a amo. Termino dizendo que enquanto o Pico me seduz como uma jovem amante irresistível nos seus 750 mil anos, o Faial com mais de 800 mil anos, antes faz as vezes de esposa madura com quem nos habituamos a viver e com quem nos dispomos a passar o resto dos dias num pacto de fidelidade, partilhando alegrias e tristezas, vendo os filhos e filhas crescerem ao longe, ansiando pela visita dos netos enquanto nos deleitamos com as visitas que aqui chegam pelo mar e pintam as suas bandeiras na marina. São esses visitantes que nos trazem novas desse mar imenso que o Genuíno Madruga andou navegando, tal como outrora outros fizeram em busca de novos mundos e gentes. Que seja o mar que nos envolve em suas carícias enquanto a terra nos faz estremecer, a trazer-nos as boas novas de novas glórias e mundos por conquistar.

 

Bem hajam pela vossa paciência para me ouvirem pois vou terminar lendo o único texto em que uso termos típicos das nossas nove ilhas.

 

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XXVI Colóquio

26 Coloquio AICL

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