Crónica 166 eleitores da lomba da maia 16 outubro 2016

 

Era dia de eleições regionais, no largo da igreja da lomba da maia agrupavam-se os habituais homens à porta da igreja enquanto as mulheres e crianças assistiam ao culto. Não chovia nem fazia sol, antes pelo contrário. A temperatura era amena e o trânsito era reduzido ao redor da escola primária Amâncio da Câmara Leite na Rua de Nossa Senhora da Conceição.

Fui votar e fui ultrapassado no meu lento passo por uma apressada agente da PSP que estacionara mal do outro lado da rua mesmo em cima da curva. A descer vinham duas velhotas amparando-se mutuamente para subirem a escadaria de acesso à Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na porta da escola estava uma jovem com uma caixa indicando RDP Antena Um que disse ser da Universidade Católica e querer fazer uma sondagem à boca das urnas. Das 429 pessoas votantes num universo de 1038 se a memória não falha estariam ali umas seis e nenhuma era jovem, antes pelo contrário com uma abstenção a rondar os 60% e o PS a sobrepor-se ao PSD que governa na Junta e na Câmara  

Não vi lá a mulher Einstein nem os seus filhos, nem as prostitutas muito sóbrias que aqui vivem, nem tampouco vi os jovens drogados do coreto da Igreja que terão, decerto, mais que fazer do que votar.

Também faltava aqui a vizinha ao lado, na casa de baixo, que com os seus 90 anos há meses partiu a bacia e anda todos os dias num corrupio para o hospital na ambulância de transporte de doentes, e com enfermeiros a virem a casa tratar dela todos os santos dias.

As vizinhas de frente não foram votar pois devem estar recenseadas na cidade pois só aqui vêm passar fins de semana e feriados.

Os vizinhos da casa de cima, mal-encarados, como os seus antecessores metropolitanos do continente estiveram todo o dia fora e não votaram pois, como mudaram há pouco, ainda não devem estar recenseados localmente. Cheira-me a gente de mudanças múltiplas, talvez professores como o caracol de casa às costas, mas destes nada se sabe que nem a cortesia dos bons-dias aprenderam.

Os vizinhos da esquina de cima, em frente ao café Eurobar, foram dar o seu voto.

Uma das idosas aqui da aldeia que mora no começo (ou será no fim?) da rua das casas telhadas a que dei o cognome de palestiniana por andar sempre com um lenço negro na cabeça que mais parece um jihab, continua a vestir-se com as viúvas de antigamente sempre de negro até à morte. A propósito sabia que o Icharb palestiniano deu lugar ao francesismo écharpe?

Não vi lá o velho agricultor ou vaqueiro, que diariamente aqui passa pelas sete e meia da manhã, na sua carroça puxada por um frágil pónei de melenas acastanhadas.

Não vi lá nenhum dos vaqueiros que às centenas andam por estas ruas nos sete dias da semana, por entre colheitas de leite das suas vacas, que, na maior parte dos casos nem suas são, mas dos donos. Nisto a exploração feudal aliviou-se depois do 25 de abril mas assumiu novos contornos, nem sempre visíveis a olho nu. Depois do fim das quotas leiteiras da EU, foram dezenas os que foram forçados a prática das vacas, que ora, mais do que nunca, se concentram na mão de meia dúzia de proprietários aqui na Lomba da Maia.

Como não frequento missas não tive oportunidade de ouvir o padre na sua prédica dominical a aconselhar os fiéis a irem votar, mas suponho que o terá feito como sempre se faz nestas terras. Como as missas são muito frequentadas por gente bem idosa e essa lá ia votar, suponho que o sermão da véspera ou da semana anterior terá tido os seus efeitos. Mera suposição, longe de mim denegrir as qualidades democráticas clericais que, suponho, são inculcadas aos seminaristas em Angra do Heroísmo nestes tempos que correm.

Uns dias antes da eleição cá andava o presidente da câmara mai-lo o presidente da junta de freguesia e seus acólitos a percorrerem as ruas acompanhados da sua carrinha de som alti-tonitroante como acontece em todas as campanhas. Creio bem que ao longo de doze anos raras foram as vezes em que vi aqui na aldeia (freguesia chamam-lhe os locais) qualquer um dos dois presidentes da câmara que já conheci (o Silva, Ricardo 2005-2013 e o Gaudêncio, Alexandre 2013-17). Assim, sabemos que, pelo menos de quatro em quatro anos, eles se lembram de que existimos cá na ponta norte do concelho, apesar de caladinhos e não-reivindicativos ao contrário dos da Faixa de Gaza (como eu lhes chamo), os de Rabo de Peixe, vila piscatória muito conhecida e apreciada na distribuição de benesses municipais.

Não vi votar a viúva-alegre do Viagra que, segundo as más-línguas acabou por matar o marido com tanto Viagra que lhe dava…há mulheres perigosas nesta Lomba, e decerto com coisas mais importantes para fazer do que votar, coitado do jovem que ali tem sido visto ultimamente, qualquer dia deixa de poder ir trabalhar de trolha.

Não vi a votar nenhuma das mulheres que semanalmente a Junta emprega na tarefa de limpeza de ruas, pintura de muros e outras manutenções locais em troca dos benefícios do rendimento mínimo (qualquer que seja o nome que o rendimento de reinserção social atualmente ostenta). Era de esperar que elas fossem votar em troca da sua prestação de serviços que bem jeito dá a estas ruas sempre sujas, que este povo (e isto já melhorou em 12 anos) tem a mania de deitar para o chão pacotes de batatas fritas, invólucros de gelados, e todos os papéis (e não papeles como eles lhes chamam) do que adquirem no supermercado ou no café da esquina.

Dizem que devemos contar 20% de abstencionistas como emigrados ou ausentes, para já não falar dos mortos que há anos não são retirados das listas de eleitores. Creio que isto se prende com o apoio financeiro que os partidos recebem em função do número de eleitores. Se fosse em função do número de votantes eles já teriam alterado a lei e revisto os cadernos eleitorais ou dado direito de voto ausente mas como assim são beneficiados não há interesse nenhum em retirar os votos dos mortos…Um bom cidadão mesmo depois de morto continua a servir os interesses dos partidos. Exemplo de cidadania. Numa era de voto eletrónico em tanta parte do mundo, nem o obsoleto voto postal é permitido aos votantes da diáspora ou outros que estão longe dos seus locais habituais de voto. Eu entendo que este voto emigrante induza certo temor aos partidos, mas não vou aqui explicar as razões de tal receio.

Falando de números creio que mais de 50 deputados para um quarto de milhão de habitantes em nove ilhas é deputado a mais e depois a representatividade é uma coisa tramada. Imaginem que a ilha do Corvo com menos de 40 pessoas elege 2 deputados…pela proporcionalidade a Lomba da Maia só porque está aqui perdida no meio da ilha mais populosa deveria assim eleger mais de 4 deputados com 1038 votantes registados. Ficaríamos bem representados no hemiciclo na cidade da Horta. É em momentos como este que gostava de ser corvino.

E pronto daqui a quatro anos reportarei o que se passou nas mesas de voto locais

 

 

Inscritos

Votantes

Abstenção

Brancos

Nulos

1.038

429

609

19

4

 

41,33%

58,67%

4,43%

0,93%


PAN

PDR

PURP

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

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% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

Votos

% Votos

                                                   

Lomba da Maia

194

45,22

164

38,23

15

3,50

13

3,03

5

1,17

4

0,93

2

0,47

4

0,93

1

0,23

0

0,00

3

0,70

1

0,23

0

0,00

Total

194

45,22

164

38,23

15

3,50

13

3,03

5

1,17

4

0,93

2

0,47

4

0,93

1

0,23

0

0,00

3

0,70

1

0,23

0

0,0

                                                               

 

 

Crónica 164, fogo e  mais fogo  agosto 12, 2016

FARTEI-ME DO TRISTE ESPETÁCULO CIRCENSE DA TV A DAR INCÊNDIOS A TODA A HORA PARA GÁUDIO DOS PIRÓMANOS E DOS QUE LUCRAM COM ESTES FOGOS.

FARTEI-ME DAS ENTREVISTAS LAMECHAS A QUEM PERDEU TUDO E NÃO SABE COMO VAI RECONSTRUIR A VIDA

FARTEI-ME DA DOR, DO SOFRIMENTO, DA PERDA EM VIDAS, DA PERDA EM PATRIMÓNIO NACIONAL, FARTEI-ME DAS PALAVRAS OCAS DE POLÍTICOS E PERITOS

(o que adiante se escreve diz respeito a Portugal e Galiza)

QUERO AÇÃO E QUERO-A JÁ….

não é um problema de penas, pois toda a legislação está errada nesta doença pirómana...a pena não pode ser prisão tem de ser trabalho de plantação de árvores durante anos, indemnizações a todos os lesados durante a toda a vida do culpado até pagar os estragos...

 

os incêndios há 40 anos que são deliberados e a isto acrescentamos uma mão cheia de inimputáveis pirómanos, seja por seus atos de moto próprio, ou pagos com umas cervejas ... 25 anos de pena nada adianta...e tem um o custo de a sociedade manter esses párias.

 

isso em nada adianta,

 

o problema tem de se resolver de uma forma radical de se obter consenso alargado sem lóbis nem pressões de interesses privados, dando às FAP os meios de que dispunha nos anos 1990, acrescentando os mais recentes retardantes de fogo..., colocando guardas florestais (que ficam mais baratos pela centena do que um avião por uma hora), torres de vigia e outros meios de prevenção, limpando as matas que são do Estado, multando os privados (emigrados ou não que não limpam as suas terras, substituindo os eucaliptais sedentos de água por árvores autóctones de cada região..... Intensificar a formação aos bombeiros, profissionalizar os bombeiros todos (outra vez ficaria mais barato do que uma hora de avião ou helicóptero).

 

é preciso é vontade política e nenhum partido no poder desde 1975 mostrou ter tal vontade... eu e tu, ou você que me lê, ou qualquer pessoa com senso comum... resolvíamos isto em duas penadas se estivéssemos em posição de poder decidir como fazer... e poupavam-se milhões e ardia muito menos área....

 

nada que eu não tivesse escrito nestes últimos 40 anos ao ponto de prometer que esta é a última vez que me manifesto sobre o tema e não sou perito e ninguém pediu a minha opinião...

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