
Cristóvão de
Aguiar
nasceu no
Pico da Pedra, Ilha de São Miguel, em 8 de Setembro de 1940. Aí fez os seus
estudos elementares, na Escola de Ensino Primário da freguesia. Concluídos os
exames do 2.º grau e de admissão aos liceus, matricula-se no então Liceu
Nacional de Ponta Delgada, cujo curso complementar de Filologia Germânica
conclui em Julho de 1960. Durante os últimos anos do liceu, colabora, em verso
e prosa, nos jornais locais. Parte nesse mesmo ano para Coimbra, onde ingressa
no Curso de Filologia Germânica da Faculdade de Letras da sua Universidade. Em
Janeiro de 1964, interrompe o curso universitário por ter sido chamado a
frequentar o Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, que termina em Agosto, com
a promoção a Aspirante. Após uma curta passagem pelo Regimento de Infantaria
15, em Tomar, é mobilizado para a guerra colonial, na então província da Guiné,
para onde parte, em Abril de 1965, com a sua companhia de caçadores. Um mês
antes do embarque, publica um livrinho de poemas, Mãos Vazias, que pouco
ou nada abona em seu favor. Regressa da Guiné, cansado e casado com um filho,
em Janeiro de 1967, e após um ano e meio de luta interior contra a doença e o
desânimo consegue concluir as cadeiras do Curso de Filologia Germânica, indo de
imediato lecionar para a então Escola Comercial e Industrial de Leiria. Aí
permanece um ano e meio, regressando a Coimbra para escrever a sua tese de
licenciatura, O Puritanismo e a Letra Escarlate, que apresenta em Junho
de 1971, obtendo assim o grau de licenciado em Filologia Germânica. A
experiência da guerra forneceu-lhe material para um livro posterior, incluído
ao princípio em Ciclone de Setembro (1985), de que era uma das três
partes, autonomizado, depois, com o título de O Braço Tatuado (1990).
Foi durante quinze anos redator da revista Vértice, de Coimbra
(1967-1982), tendo, nesse último ano, organizado um número duplo, especial,
sobre a cultura açoriana. Depois do 25 de Abril, colaborou na então Emissora
Nacional com a rubrica semanal “Revista da Imprensa Regional” (1974-1975), que
suscitou muita polémica e alarido nos meios eclesiásticos e reacionários da
época. De 1972 até 2002 foi Leitor de Língua Inglesa da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade de Coimbra, estando neste momento aposentado.
Durante a sua carreira literária, ganhou os seguintes prémios: Ricardo
Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa (1978), com o livro Raiz
Comovida I, a Semente e a Seiva; Grande Prémio da Literatura Biográfica da
APE /CMP (1999), com Relação de Bordo I (1964- 1988), diário ou nem
tanto ou talvez muito mais; Prémio Nacional Miguel Torga / Cidade de
Coimbra (2002), com o original Trasfega, casos e contos e quatro
anos mais tarde com A Tabuada do Tempo, a lenta narrativa dos dias,
2006. Foi agraciado pelo Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, com o grau
de comendador da Ordem Infante Dom Henrique (3 de Set. 2001).
AUTOBIOGRAFIA
Cristóvão de
Aguiar
,
escritor, usa também o nome de Luís Cristóvão Dias de
Aguiar. Nasceu na
Ilha de São Miguel numa altura em que o calendário apontava o dia 8 de Setembro
de 1940. Procede de uma nobre estirpe de artesãos, músicos, poetas repentistas
e agricultores. O escritor foi parido em Coimbra muito mais tarde, num dia impreciso
de Março de 1965, três semanas antes de o cidadão que lhe abonava o corpo ter
zarpado para a guerra colonial. Com pânico de morrer sozinho no mato sem deixar
casta, o futuro combatente sangrou-se em saúde e propagou-se em livro. Parto
prematuro, à custa de ferros. O nascituro merecia desmancho em boas condições
higiénicas numa clínica especializada das letras. Acabou o livrinho por sair,
ficando um monstro para sempre. Enamorado, o pai deu-lhe o nome de Mãos
Vazias. Voluminho esvaziado de tudo, até da mais rudimentar poesia. Já
entrado nos quarenta, a sua idade mental não vai além dos catorze. Muito longe
desse evento, o rapaz que fui cresceu e medrou inteiro como o seu nome civil.
Frequentou a escola elementar na freguesia do Pico da Pedra, a meio caminho
entre a velha Vila da Ribeira Grande e a cidade de Ponta Delgada. Pouco antes
de se matricular no Liceu, já seu
Pai havia emigrado para a Ilha
Terceira, a América pequenina. A outra era um sonho que só alguns tinham a dita
de alcançar. Na Base americana o Pai foi torneiro mecânico, para o supreio da
família e pagar os estudos ao filho hospedado na cidade. O afastamento do
conchego de casa e da freguesia tornara-se imperativo. A primeira perda e
separação. A entrada no palácio do Liceu deve ter sido o primeiro grande tsunami
que amargou ainda de calças curtas. Até o racharam de cima a baixo.
Logo no início da aventura escolar, só o Cristóvão passou a valer no
seio da nova e estranha comunidade. O prenome Luís, por que era
conhecido e chamado, ficou submerso. Só para a gente da freguesia e parentela
mais chegada tinha a dignidade de estatuto vocativo. Havia quem se arriscasse
ao chamamento cristão inteiro: Luís Cristóvão. Vozes isoladas que não
ecoavam no íntimo. Continua hoje enchendo dois nomes, como se vivesse em duas
casas. O aluno medroso haveria de ficar para sempre cindido. Passou o Cristóvão
a ser o contraponto do Luís ou vice-versa. As leviandades de um,
justificadas pelas aparentes virtudes do outro, numa peleja de vizinhos
desavindos a habitarem a camisa-de-forças do mesmo corpo.
Concluíram o sétimo ano de letras em 1960. Deverá ter sido o Cristóvão quem,
na sua excentricidade sonhadora, fez atrasar o curso liceal, arrastando-o
durante uma novena de anos. Gostava de namorar e de faltar às aulas. Ia ao
encontro da vida para colher as flores que a escola só lhe concedia, murchas e
compendiadas, em livros únicos e maçudos. Não quis ir sozinho. Levou consigo o Luís.
E foi o este quem pagou a conta calada exibida pelo pai ao regressar da
emigração de-ao-pé-da-porta. Passou a trabalhar na oficina de serralharia, para
que aprendesse a arte do ferro e ficasse do mesmo passo ciente do quanto
custava a vida. O Cristóvão fazia pouco caso das admoestações e dos
conselhos do companheiro de rés-do-chão. E acabou por ter sorte. A seguir a
umas férias grandes, deixou o Luís por um bambúrrio de ser aprendiz de
serralheiro para prosseguir os estudos. Foram bons alunos daí em diante e mais
tarde dispensaram do Exame de Aptidão à Universidade. Na noite de 10 de Outubro
de 1960, zarpámos da Ilha a bordo do Lima e chegámos a Lisboa na manhã
do dia 15. Um prodígio de velocidade só possível à tecnologia de ponta em vigor
na época. À medida que o navio subia o Tejo rumo ao Cais de Santos, ao Cristóvão
bailavam-lhe os olhos. O Luís terá tido uma sensação de rural
perante o rio que ambos sabiam da geografia papeada; a cidade de Lisboa,
branca, apertada nas sete colinas, parecia sair das páginas dos livros de
estudo para se postar, ali defronte, juntamente com um comboio em louca
correria sobre a linha férrea de Sintra, entrevisto pela primeira vez, que, na
Ilha, só se avistavam navios... Pena, pensava o Luís, não se poder
vislumbrar o famoso retângulo de oitenta e nove mil quilómetros quadrados,
dentro do qual Portugal inteiro se acolhia ou encolhia ─ o mapa saíra da
sala de aula da escola elementar para há muito se emoldurar dentro dele... O Cristóvão
acrescentou: “Sim, o mapa estava muito perto da santíssima trindade: os
retratos de Salazar e de Carmona, mais o crucifixo de latão no meio de
ambos...” Às sete e vinte e cinco da noite partiam de Santa Apolónia, no Foguete.
O único comboio que só parava numa estação antes de Coimbra, a de Fátima. Muito
fácil não haver engano − na segunda paragem era obrigatório descer. Havia
novatos das Ilhas que se apeavam na Mealhada ou ainda mais arriba...Na Estação
Velha, o Luís sentiu-se abandonado. Não percebia as palavras difundidas
pelos altifalantes. Sabia que tinha de mudar para chegar à Estação Nova. Acabou
por perguntar. O interlocutor não lhe entendeu a pronúncia cerrada e ele ficou
transido. Por fim, o Cristóvão dirigiu-se, afoito, a um corretor,
elegante na sua pronúncia impecável, a farda castanha, debruada de dourados. Em
vez de responder, o angariador perguntou: “O senhor doutor precisa de
hotel?” O Cristóvão olhou para o lado, curioso de ver o primeiro titular
de tal cargo na maternidade onde os doutores nasciam de parto prematuro.
Como não viu ninguém por perto e a pergunta fora repetida, ficou com a pele arrepiada
− chegara ao fundamento de que o doutor era ele próprio... A
ligação chegou. Viajaram num molhinho e meio enregelados. Pernoitaram na
primeira pensão que encontraram à saída da Estação Nova. Despertaram numa manhã
lavada de sol, sem mar. Criou-lhes um vazio, que doeu pelo dia fora, preenchido
nas andanças de arrendar um quarto. Reforçada, a praxe recomeçou no dia
seguinte, o da abertura solene. O medo tomou então conta do Luís. Tinha
de ir à única cantina que existia no Palácio dos Grilos para tomar as
refeições. Deixou
por vezes de ir jantar com pavor de ser rapado; outras, ia de táxi; mas o dinheiro era escasso. Tamanho o medo que semanas depois, desiludido e assustado, queria regressar no vapor ao ventre materno da Ilha. Escreveu uma carta esborratada de lágrimas. A resposta recebida desenganava-o: “O que vens tu para cá fazer? aguenta-te; um homem não se deixa afundar dessa maneira; tudo é difícil ao princípio e um ano passa depressa...” Uma noite de Novembro, na véspera da Tomada da Bastilha, o Cristóvão decidiu arrostar com a praxe: uma trupe apanhou-o junto à Porta Minerva, aplicando-lhe as regras da soleníssima praxe. A tormenta cultural deflagrada em Coimbra nos princípios dos anos sessenta foi mais violenta do que qualquer Ciclone de Setembro nas Ilhas. O efeito foi ter ele sobrevivido em estado de embriaguez, a consciência dos limites à flor da pele e as Mãos Vazias de uma poesia que se recusava a cantar, mas que, bem ou mal, fez nascer, de parto prematuro, o tal Cristóvão de Aguiar , que persiste e insiste na lavoura da escrita. O Luís franzia o nariz e aos poucos ia deixando de acompanhar o irmão gémeo, transfigurado num Grito em Chamas, desarvorado, procurando queimar e atingir não se sabia que alvo, talvez o Pão da Palavra com que queria alimentar o espírito confuso... Se por índole e humor o Luís era bicho-de-conta, mais se encantou no seu cantinho. Ao invés, o outro lá ia caminhando aos tropeções, procurando remover a Raiz Comovida ainda fincada e ficada na Ilha, já porém dando topadas que o faziam sangrar num balbucio de intensa Trasfega. Em incessante viagem interior, grandes lutas travou dentro de si, numa lufa-lufa de Passageiro em Trânsito que procurava solucionar muitos dos problemas que a geração a que passou a pertencer já há muito resolvera. Teve a sorte de ter caído num meio intelectual progressista – o da revista Vértice. Na Brasileira convivia com os seus intelectuais e com outros que lhe estavam próximos, o denominado Grupo da Brasileira. Nele pontificavam Joaquim Namorado, Luís Albuquerque, Orlando de Carvalho, Mário Vilaça, para só falar dos que já saíram de cena, e sobretudo conviveu Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia. Ouvindo mais do que falando, soletrava e aprendia devagar as primeiras letras de uma cultura e de uma mentalidade nova que em nada se assemelhava à que em si vigorava. Assimilou novos valores humanísticos, enraizados nos problemas concretos do País, e estabeleceu com a vida cultural e literária uma Nova Relação, na qual havia de colocar um portaló por onde entrava e saía de Bordo de qualquer iate de cabotagem. Da Ilha ele trouxe um lastro de recursos afetivos e de novelos sentimentais que têm vindo a servir-lhe de conduto ao pão seco e amargo do dia-a-dia. Toda essa matéria nebulosa tem-lhe servido de húmus para a escrita. Coimbra, que já faz parte do seu roteiro afetivo e cultural, forneceu-lhe a ferramenta sem a qual não poderia carpinteirar a escrita, nem ordenar o seu desordenado pensamento. Quarenta e cinco anos de convívio, cumplicidades, amores e desamores, alegrias e tristezas, deram para uma vida quase cheia. O bastante para que vá pensando em fechar o círculo, regressando ou não às raízes comovidas. Pode ser que, nessa remota origem, Coimbra se lhe imponha de tal sorte que tenha de escrevê-la, a ver se a sente mais aquietada dentro de si. O mesmo aconteceu a respeito da Ilha. Desinquietou-o de tal maneira que não teve outra opção que não fosse a de a ir iludindo com meia dúzia de livros que em absoluto nunca a aquietaram. Continua impertinente e ciumenta. Pode ser que se acomode com Marilha, Mar Ilha, Marília, nome de mulher transfigurada na gostosa dicção de Marilha por força da pronúncia ainda em vigor.
OBRAS DE
Cristóvão de
Aguiar
Poesia:
Mãos Vazias; ed. do
Autor, com a chancela da Livraria Almedina, Coimbra, 1965
O Pão da Palavra;
Cancioneiro Vértice, Coimbra, 1977
Sonetos de Amor
Ilhéu; ed. do Autor, Coimbra, 1992
Prosa:
Breve Memória
Histórica da Faculdade de Ciências (No II Centenário da Reforma
Pombalina), Coimbra, 1972
Alguns Dados sobre a
Emigração Açoriana; Separata da Revista Vértice, Coimbra, 1976
Raiz Comovida
(A Semente e
a Seiva; 1.ªEd.,Coimbra, 1978 (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências
de Lisboa)
Raiz Comovida II
(Vindima de
Fogo); 1.ª ed., Coimbra, 1979
Raiz Comovida III
(O Fruto e o
Sonho); 1.ª ed., Angra do Heroísmo, SREC, 1981
Raiz Comovida
(Trilogia
Romanesca); Edição revista e remodelada num só volume, Editorial Caminho,
Lisboa, 1987
Raiz Comovida
(Trilogia
Romanesca); Edição revista e remodelada num só volume, Edições D. Quixote,
Lisboa, 2003
Ciclone de Setembro; (Romance
ou o que lhe queiram chamar), Editorial Caminho, Lisboa,
1985, incluído agora
no romance Marilha, Publicações D. Quixote, 2005
Com Paulo Quintela à
Mesa da Tertúlia; Nótulas Biográficas, Serviço de Publicações da
Universidade de Coimbra, 1986, 2.ª ed. revista e aumentada, Imprensa da
Universidade, 2005
Passageiro em
Trânsito; Novela em espiral ou o romance de um ponto a que
se vai sempre acrescentando mais um conto, Editora Signo, Ponta Delgada,
1988; 2.ª ed. refundida, Salamandra, Lisboa, 1994
Emigração e Outros
Temas Ilhéus; Miscelânea, Editora Signo, Ponta Delgada, 1992
A Descoberta da
Cidade e Outras Histórias; Contos, Editora Signo, Ponta Delgada, 1992
Um Grito em Chamas; Polifonia
Romanesca, Edições Salamandra, Lisboa, 1995, integrado também no romance
Marilha, de que constitui a primeira parte.
Relação de Bordo
(1964
-1988); diário ou nem tanto ou talvez muito mais (Grande Prémio da
Literatura Biográfica da APE / CMP), Campo das Letras, 1999
Relação de Bordo II
(1989-1992);
diário ou nem tanto ou talvez muito mais, Campo das Letras, 2000
Relação de Bordo III,
diário
ou nem tanto ou talvez muito mais, P. D. Quixote, 2004
Trasfega, casos e
contos, Prémio Miguel Torga / Cidade de Coimbra, 2002
Marilha, sequência
narrativa, D. Quixote, 2004
A Tabuada do Tempo, Prémio
Miguel Torga, Almedina, 2006
Miguel Torga – O
Lavrador das Letras – Um percurso partilhado, Almedina 2007
Braço Tatuado –
Retalhos da Guerra Colonial, D. Quixote, 2008
Tradução:
A Riqueza das Nações, Adam
Smith; Fundação Calouste Gulbenkian, 1982
Colaboração:
Vietname; Antologia
Poética, Nova Realidade, 1970
Antologia de Poesia
Açoriana; Organizada por Pedro da Silveira, Livraria Sá da Costa,
Lisboa, 1977
Para o Mundo de
todos os Homens; Pequena Antologia de Poesia de Autores Portugueses
contra o Racismo e Colonialismo, Núcleo de Coimbra do Conselho Português para a
Paz e Cooperação, 1977
Antologia Panorâmica
do Conto Açoriano; Organizada por João de Melo, Vega, Lisboa, 1978
O Eclipse; Extrato de
Romance, Revista Vértice, 448, Maio-Junho de 1982 (Número dedicado à
Cultura Açoriana, organizado pelo Autor)
The Sea Within; A Selection of Azorean Poems, Gávea-Brown, Providence, 1983
homenagem na mesa quadrada sobre açorianidade apresentação da obra PASSAGEIRO EM TRÂNSITO POR ROSÁRIO GIRÃO